BaianaSystem aporta na Tanzânia na rota segura do disco ‘Navio pirata’


Com sete faixas, o primeiro ato do álbum ‘OxeAxeExu’ singra entre África e América Latina a partir das águas da Bahia. Capa do disco ‘Navio pirata’, da BaianaSystem
Arte de Cartaxo a partir da obra ‘The new brazilian flag #2’, de Raul Mourão
Resenha de álbum – Ato 1
Título do álbum: OxeAxeExu
Título do primeiro disco: Navio pirata
Artista: BaianaSystem
Edição: Máquina de Louco
Cotação: * * * *
♪ Em fevereiro de 2019, ao lançar o disco O futuro não demora, a BaianaSystem se reinventou entre as águas do Oceano Atlântico que banharam o terceiro álbum da banda de Salvador (BA).
Decorridos dois anos, o futuro bate à porta e Russo Passapusso (voz), Roberto Barreto (guitarra baiana) e Seko Bass (baixo) dão outro mergulho, novamente dividindo o comando do leme do navio com o produtor musical Daniel Ganjaman.
Contudo, é outra a rota de Navio pirata, primeira parte – ou ato, como prefere a banda – do quarto álbum da BaianaSystem, OxeAxeExu, previsto para ser completado em março com mais dois atos, Recital instrumental e América do Sol.
O destino final da viagem marítima é a América Latina, mas, até o álbum chegar lá, Navio pirata aporta em segurança nas águas da Tanzânia, partindo da Bahia sob a benção de Reza forte (Russo Passapusso, Seko Bass e BNegão), primeira das sete faixas do disco.
País da África Oriental, a Tanzânia é exemplo da influência árabe no continente. Das ruas da maior e mais populosa cidade do país, Dar es Salaam, bomba nos soundsystems a singeli music, gênero musical de ritmo acelerado como a agalopada axé music baiana ou batidão veloz do funk de 150BPM.
A singeli music é a matéria-prima da faixa mais expressiva de Navio pirata, Nauliza (Makaveli, Jay Mitta, Russo Passapusso, Roberto Barreto e Seko Bass), música cantada no dialeto suaíli, língua falada nas ruas de Dar es Salaam. Coautores da música, o DJ e produtor musical Jay Mitta e o cantor Makaveli se juntam à BaianaSystem na gravação de Nauliza.
Por deslizar sobre águas imersas em ancestralidade, o disco Navio pirata cruza fronteiras com devoção ao sagrado.
BNegão e Russo Passapusso interagem na música ‘Reza forte’
Cartaxo / Divulgação
Música que anunciou o álbum OxeAxeExu em single editado em 2 de fevereiro, a já mencionada Reza forte dá banho de descarrego com o discurso do rapper BNegão, parceiro e convidado da faixa, introduzida por sample de gravação da Cantata pra Alagamar (Alberto Kaplan e Waldemar José Solha, 1978), tema de insurreição orquestrada por camponeses paraibanos para resistir aos abusos patronais e protestar contra a má distribuição de terras.
A conexão de Navio pirata com a espiritualidade pulsa tanto em Raminho (Roberto Barreto, Russo Passapusso e rezadeiras) – faixa preenchida pelo canto da benzedeira paraibana Dona Ritinha, extraído de documentário do cineasta Breno César sobre o exercício da fé sincrética por rezadeiras dos sertões brasileiros – como no título de O que não me destrói me fortalece (Russo Passapusso).
O que não me destrói me fortalece é dub enraizado no universo rastafári nayambing e gravado pela BaianaSystem com produção musical de Bruno Buarque e com a adesão vocal de Céu, cantora paulistana já habituada a transitar por gêneros exportados pela Jamaica tanto para a Bahia como para a Tanzânia.
Da Bahia, precisamente de Salvador (BA), vem Buzu (Tonho Matéria, 1993), tema da banda Fuzuê sampleado na agitada faixa Catraca (Russo Passapusso, Seko Bass e Ubiratan Marques).
Entre a Bahia e a Tanzânia, há o peso do batidão eletrônico da jungle music, estilo britânico no qual se baseia Monopólio (Filipe Cartaxo, Russo Passapusso e Seko Bass), faixa de andamento acelerado, aberta com sample de samba-rock gravado pelo cantor baiano Cyro Aguiar no álbum Anticonvencional (1969).
No fim da rota de Navio pirata, Chapéu Pananá (Russo Passapusso e Seko Bass) cai no suingue da América Latina, citando na letra países como Paraguai, Uruguai e Nicarágua em gravação que abre o leque rítmico para outros portos.
Com capa que expõe arte criada por Cartaxo a partir da obra The new brazilian flag #2, do artista Raul Mourão, Navio Pirata viaja com segurança, quebrando fronteiras, mas sem perder no horizonte a vista de Salvador (BA), cidade – ou melhor, duas cidades separadas por profundos abismos sociais – que serve de bússola para as viagens marítimas da BaianaSystem pelo vasto mundo da música.