Autor de ‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras’ lança livros com aposentados como detetives


Richard Osman fala ao g1 sobre escrever ‘O Homem que Morreu Duas Vezes’ em segredo. Ele também comenta adaptação de ‘O Clube do Crime’. ‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras’ e ‘O Homem que Morreu Duas Vezes, do britânico Richard Osman, lançados no Brasil pela Intrínseca.
Intrínseca
O que você faz todas as quintas-feiras? Os aposentados Elizabeth, Joyce, Ron e Ibrahim discutem ópera japonesa. Ou, melhor: não discutem ópera japonesa. Isso é só o que está escrito na agenda de clubes da casa de repouso de luxo onde moram.
Na verdade, o objetivo das discussões deste clubinho é um pouco mais sangrento: eles querem solucionar assassinatos não resolvidos de décadas atrás.
Fenômeno editorial britânico publicado em junho no Brasil, “O Clube do Crime das Quintas-Feiras” segue contando essa história e acaba de ter sua sequência lançada, “O Homem que Morreu Duas Vezes”. Os livros são os primeiros do produtor e apresentador britânico Richard Osman.
O produtor e apresentador britânico Richard Osman, autor de ‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras’ e ‘O Homem que Morreu Duas Vezes’, ambos lançados pela Intrínseca no Brasil.
Penguin Books (via Intrínseca)
A história gira em torno dos quatro idosos – todos na casa dos 70 anos: Joyce, enfermeira por décadas, que tem o dom de “passar despercebida” nos lugares; Ron, ex-líder sindical que ainda sabe comprar uma briga; Ibrahim, psiquiatra aposentado que trocou o consultório pelo pilates; e Elizabeth, que… bom, digamos que Elizabeth esteja acostumada a sangue, assassinatos e mistérios.
Em “O Clube do Crime das Quintas-Feiras”, o grupo improvável de detetives se depara com dois assassinatos atuais relacionados ao lugar onde moram. É claro que não vão deixar passar a oportunidade de investigar os crimes.
Em entrevista ao g1, Osman conta que a ideia do livro surgiu enquanto observava o lugar onde a mãe dele mora. É uma casa de repouso que, segundo ele, é um lugar “muito lindo, com colinas verdes e lagos e bosques”, mas também parece “o cenário de um livro de Agatha Christie”.
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“Sabe, tem aquela gentileza muito inglesa. Então você pensa, ‘coisas ruins podem acontecer aqui'”, descreve. Todos os moradores do lugar, diz Osman, têm mais de 70 anos. (No livro, a idade mínima para morar no retiro de luxo é de 65 anos).
“Eu sempre conversava com as pessoas quando estava lá – você ouve histórias incríveis, as coisas que elas fizeram em suas vidas. E então, um dia, quando estive lá, pensei: ‘bem, e se houvesse um assassinato aqui?’ E foi aí que eu tive a ideia para o ‘Clube do Crime das Quintas-Feiras”, conta o autor.
Ele explica que percebeu o “potencial” dos aposentados como detetives assim que começou a escrever o livro – o que, aliás, fez em segredo (leia mais abaixo).
“Na Inglaterra – não sei se é o mesmo no Brasil – tendemos a ignorar um pouco os mais velhos, tendemos a subestimá-los, achamos que eles tiveram sua juventude. E, no segundo em que comecei a escrevê-lo [“O Clube do Crime”], percebi o que esses quatro poderiam fazer. E percebi que todos pensavam que eles eram inofensivos – e eles não são inofensivos. Parecem a gangue perfeita de detetives”, diz Osman.
Escrita em segredo
‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras’ do britânico Richard Osman, lançado no Brasil pela Intrínseca.
Intrínseca
Leve, divertido e sensível ao tratar de vida, morte e velhice, “O Clube do Crime das Quintas-Feiras” é o primeiro do que deverá ser uma série com quatro volumes.
“Eles [os personagens] estão todos no final da casa dos 70. Então há um limite de quantos eu posso escrever”, pondera.
O autor explica que, quando começou a escrever, o livro não era para ser engraçado.
“É interessante. Eu aceito que é engraçado e que as pessoas estão rindo. Eu não planejei escrever um livro engraçado de forma alguma – eu planejei escrever um livro sério, e é por isso que, eu acho, o material sério está lá. Mas acho que tenho experiência em comédia. E esses quatro personagens, assim que comecei a escrever, assim que entrei na cabeça deles, eles estavam apenas me fazendo rir.”
Lançado há um ano no Reino Unido, o romance se tornou, em dezembro, o primeiro livro de estreia da história britânica a ser o mais vendido no Natal – desbancando “Uma Terra Prometida“, de Barack Obama.
Mas, quando começou a escrevê-lo, Osman o fez em segredo:
“Em primeiro lugar, porque todos nós sabemos como é quando um de nossos amigos diz que está escrevendo um romance. Você primeiro pensa ‘por favor, Deus, não me faça ter que ler, não me mostre capítulos, porque eu não sei o que vou dizer’. Então, escrevi em segredo para poupar meus amigos.”
E havia outra questão: o temor de que aceitassem publicar o livro só por causa de sua ligação com a televisão. (Ele apresenta dois programas de perguntas e respostas na BBC).
Mas esse receio logo passou: o “Clube do Crime” foi traduzido em dezenas de países – além do Brasil, Alemanha, França, Japão, México e Rússia são alguns deles. Também foi disputado por 10 editoras britânicas e 14 estúdios de filmagem. (O de Steven Spielberg, Amblin Entertaiment, venceu a briga e vai adaptar o romance para as telas).
Ver a obra publicada em outros países – inclusive vários onde o inglês não é a primeira língua – foi “o verdadeiro prazer” para ele, diz Osman.
“Sinceramente, é uma alegria absoluta, porque, sabe… Pensar que as pessoas no Brasil estão lendo o livro. O Brasil tem livros próprios o suficiente. E é tão lindo ser aceito aí, e eu sei que a Grã-Bretanha tem uma grande tradição de ficção policial, e é adorável pensar que ao redor do mundo eu poderia me tornar parte dessa tradição. Isso seria bom”, diz.
Ele afirma que o fato de o livro ser “muito, muito, muito inglês” torna o sucesso fora de seu país natal ainda mais surpreendente.
“Os personagens são muito ingleses, há referências muito inglesas, o humor é muito inglês, e eu pensava, ‘mas com certeza, outros países… não tenho certeza do que vai ser…’ “, relata.
“Mas então eu pensei nos livros que eu li. E, se eu leio um livro brasileiro, quero que seja brasileiro. Sabe, quero ler um livro que me faça sentir que estou no Brasil. Com o povo brasileiro, na cultura brasileira. E, certamente, se você ler este livro, saberá que está na Inglaterra. Você sabe que está com ingleses. Você sabe que é autêntico”, diz, rindo.
Questionado se tem medo de que a adaptação para as telas “estrague” a obra, ele responde que não.
“Honestamente… não me interessa. Eu vendi o filme para as pessoas certas, então ele está em boas mãos. Se eles estragarem, eles estragaram. Não acho que vão”, afirma Osman.
Ele também diz não ter em mente quem poderia fazer o papel dos personagens no filme, mas relata que, quando sai às ruas, as pessoas costumam gritar para ele e pedir Judi Dench no elenco. Mas o britânico afirma que, apesar de ser produtor-executivo, não pretende participar da decisão.
A atriz britânica Judi Dench
REUTERS/Vincent West
“Acho que Steven Spielberg provavelmente será melhor em escolher pessoas do que eu. Vou seguir em frente e escrever os livros, porque os livros são a minha responsabilidade. E eu não quero ter nenhuma participação no filme. Se o filme fracassar, o filme vai fracassar, tudo bem. E se o filme for um sucesso, brilhante, essa é a cereja do bolo para mim.”
‘Todos que sobrevivem ao primeiro livro voltam para o segundo’
Osman comemorou o lançamento de seu segundo livro no Twitter: ‘#TheManWhoDiedTwice finalmente foi lançado hoje! Todos os que sobrevivem ao primeiro livro voltam para muito, muito mais problemas. Quem gostou do primeiro vai gostar deste. Mal posso esperar para vocês lerem’, disse o britânico.
Reprodução/Twitter Richard Osman
Recém-lançado, o segundo volume, “O Homem que Morreu Duas Vezes”, vem seguindo a mesma rota de sucesso de seu predecessor: na semana de 19 de setembro, estava em primeiro lugar da lista de mais vendidos na Amazon do Reino Unido.
(Antes, essa posição era ocupada por “O Clube do Crime”, que foi para o segundo lugar – e está na lista há nada menos que 56 semanas).
“O Homem que Morreu Duas Vezes” começa logo após o fim do primeiro volume, e encontra o grupo de aposentados-detetives em uma aventura de segredos e conspirações, que envolve diamantes roubados e a máfia (sem spoilers).
Osman conta que ficou emocionado quando as primeiras pessoas começaram a ler a sequência (já há quem diga que ele é ainda melhor que o primeiro volume, como a crítica da livraria “Barnes and Nobles”, no tuíte abaixo):
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“Eu pensei ‘ufa, escapei. Isso é bom. Então posso dizer, com confiança, que qualquer um que gostou de ‘O Clube do Crime das Quintas-Feiras vai amar ‘O Homem que Morreu Duas Vezes’. Esse parece ser o caso.”
Agora, ele está escrevendo o terceiro livro da série – que, de novo, tem início logo após “O Homem que Morreu Duas Vezes”.
“E, de novo, eu fico pensando: ‘ah, e se esse for ruim? E se esse for terrível? Mas, de novo, eu preciso confiar em mim mesmo e confiar nos personagens – e, de novo, eu vou jogar coisas terríveis sobre eles. Todos que sobrevivem ao primeiro livro voltam para o segundo, e todos que sobreviveram ao segundo livro estão voltando para o terceiro livro. Portanto, é bom passar algum tempo com eles novamente”, diz.
E depois que a história de Joyce, Elizabeth, Ron e Ibrahim acabar? Osman pretende escrever outras. Mas sempre em ficção policial, porque é o que ama ler.