Ativista que inspirou filme ‘Hotel Ruanda’ é preso por acusação de terrorismo


Paul Rusesabagina, que vivia exilado na Bélgica, é crítico do presidente de Ruanda. Alguns ruandeses o consideram herói que salvou mais de mil pessoas ao abrigá-las em hotel que gerenciava na época do genocídio. Em dezembro de 2004, Paul Rusesabagina, que inspirou o filme ‘Hotel Rwanda’, foi fotografado ao lado da atriz Angelina Jolie na sua estreia em Beverly Hills, na Califórnia, nos EUA
Chris Pizzello/AP
A polícia de Kigali, capital de Ruanda, anunciou nesta segunda-feira (31) que prendeu Paul Rusesabagina sob acusação de terrorismo. A história do crítico do presidente Paul Kagame inspirou o filme “Hotel Ruanda”.
O Gabinete de Investigação de Ruanda (RIB) informou que Rusesabagina, que vivia exilado na Bélgica, foi preso graças à cooperação internacional e que está detido em uma delegacia de polícia na capital Kigali.
“Com a cooperação da comunidade internacional, Paul Rusesabagina foi preso e agora está nas mãos do RIB”, disse a repórteres Thierry Murangira, porta-voz adjunto do Gabinete de Investigação de Ruanda.
O porta-voz, porém, recusou-se a esclarecer as circunstâncias da prisão, argumentando que isso poderia “prejudicar a investigação”.
O porta-voz, que acusou Rusesabagina de ter trabalhado pela mudança de regime em Kigali, acrescentou que ele era objeto de um mandado de prisão internacional e “suspeito de ter financiado e criado grupos terroristas operando na região dos Grandes Lagos”.
Os investigadores o culpam por atos de terrorismo, incêndios, sequestros e assassinatos, principalmente cometidos em território ruandês em duas ocasiões, em junho e dezembro de 2018.
O Ministério Público da Bélgica sabia que Rusesabagina era alvo de um mandado de prisão internacional e foi informado por Ruanda de sua prisão, mas “não tinha detalhes das circunstâncias”, segundo declarou à AFP seu porta-voz, Eric Van Duyse.
Rusesabagina, um hutu, era o gerente do Hotel des Mille Collines em Kigali, retratado no filme “Hotel Ruanda”, durante o genocídio que deixou quase 800 mil mortos entre abril e julho de 1994, principalmente entre a minoria tutsi, mas também entre os hutus moderados, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Alguns ruandeses o consideram um herói que salvou mais de mil pessoas ao abrigá-las no hotel, mas outros, incluindo as principais autoridades do regime de Paul Kagame, o chamam de impostor.
Ele então se tornou um crítico feroz de Kagame, cuja Frente Patriótica de Ruanda (FPR) encerrou o massacre.
No exílio, Rusesabagina fundou o Movimento Ruandês para a Mudança Democrática (MRCD) e continuou a criticar o presidente Kagame por amordaçar a oposição.
No poder desde 1994, Paul Kagame é criticado por liderar o país com punho de ferro, reprimindo todas as formas de dissidência e prendendo ou exilando políticos da oposição.
A organização Human Rights Watch acusou seu regime de execuções sumárias, prisões, detenções ilegais e torturas nas prisões.
O RIB chamou o MRCD e seu braço armado, Frente de Libertação Nacional (FLN), de “grupos terroristas extremistas” e Ruanda acusou os vizinhos Burundi e Uganda de abrigá-los.