As vítimas de Daryll Rowe, o primeiro britânico condenado por transmitir HIV intencionalmente


Acusado por dezenas de homens, Daryll Rowe foi condenado à prisão perpétua; a história dele e dos homens que infectou e ameaçou depois dos encontros é tema de documentário da BBC. Depois de fazer várias vítimas, Daryll Rowe foi a primeira pessoa a ser presa no Reino Unido por contaminar deliberadamente pessoas com HIV
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“Como alguém pode ser tão cruel?”
Lenny deixa escapar a pergunta em voz alta enquanto fala de um encontro que jamais esqueceu. No final de 2015, Lenny se encontrou pela primeira vez com o cabeleireiro Daryll Rowe. Três anos depois, Rowe se transformou na primeira pessoa condenada no Reino Unido por contaminar deliberadamente outras pessoas com o vírus HIV.
Lenny e Rowe viviam em Brighton, na Inglaterra, e se conheceram num aplicativo de paquera. Começaram os flertes antes mesmo de trocar fotos. Mas, quando começaram a falar de sexo, o tom da conversa mudou.
Daryll dizia que não queria usar preservativo. Lenny cortou o pretendente e decidiu ignorar o cabeleireiro. Isso mudou quando Rowe lhe mandou uma mensagem dizendo que concordava em usar camisinha.
Pouco depois, Rowe apareceu na casa de Lenny.
“Penso nesse momento constantemente. Simplesmente não devia ter aberto a porta”, diz Lenny, de 38 anos.
Lenny: ‘Simplesmente não deveria ter aberto a porta’
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Rowe não cumpriu a promessa. Ouviu do parceiro que, se não usasse camisinha, teria que ir embora. Pareceu concordar, e Lenny não percebeu que o que de fato aconteceu.
Na semana seguinte, Lenny começou a receber mensagens e telefonemas com ameaças. “Como se atreve a me bloquear?”, gritou Rowe no telefone. “Não pode se livrar de mim. Vai se queimar. Eu furei a camisinha. É, estúpido. Te enganei.”
Lenny cresceu em Nova York, é maquiador de celebridades e tinha acabado de terminar um relacionamento quando conheceu o cabeleireiro.
“Senti medo no corpo inteiro”, recorda Lenny, cujo semblante muda por completo ao se lembrar do que aconteceu. Depois das mensagens insensíveis e cruéis, ele acabou fazendo um exame. Estava infectado com o vírus HIV.
O resultado positivo mudou sua vida para sempre. Pensou, de forma equivocada, que a vida havia acabado e que tinha recebido uma sentença de morte. Ao ouvir na clínica onde fez o teste que seu caso não era único, decidiu denunciar Rowe.
Lenny e outros quatro homens decidiram falar publicamente sobre os encontros com Rowe num novo documentário da “BBC Three”, canal de televisão da BBC, intitulado “O Homem Que Usou o HIV Como Uma Arma”.
Comportamento padrão
Um dia depois de receber o diagnóstico sobre o HIV, Rowe subiu um vídeo no seu canal do YouTube falando sobre vida saudável e assumindo ser vegano. “Não bebo, não fumo e uso azeite de coco porque é muito bom para o sistema imunológico.”
Ele mantinha em segredo que vivia com o HIV. Nem seus pais adotivos, que moram em Edimburgo, a capital escocesa, sabiam. Ele tinha rejeitado o tratamento médico e preferiu passar a beber a própria urina em busca de uma “cura” prometida na internet.
Foi nessa época que o cabeleireiro passou a contaminar deliberadamente suas vítimas. E o padrão era sempre parecido. Enviava mensagens por meio da internet ou por aplicativos para obter sexo. Tentava convencer os parceiros a não usar preservativos. Depois, começava a mandar mensagens com ameaças e altamente perturbadoras para assustar as pessoas com quem teve as relações.
‘Tirei a camisinha’
Stuart começou a conversar com Rowe em julho de 2015, também num aplicativo. Marcaram um encontro e ele foi até o cabeleireiro. A porta estava aberta quando chegou. “Estava te esperando”, disse Rowe.
Stuart foi chamado de paranoico ao ter averiguado a camisinha depois do sexo
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Ele se lembra de ter pedido para que o cabeleireiro colocasse uma camisinha. Mas, depois do sexo, olhou o preservativo e ele parecia não ter sêmen. De pronto confrontou o cabeleireiro, que reagiu perguntando se Stuart era paranoico. “Sim, tinha uma camisinha”, rebateu.
Eles chegaram a bater um papo e assistir a um vídeo antes de Stuart ir embora. Recebeu mensagens de Rowe perguntando se ele tinha gostado do sexo e também atendeu a uma chamada na qual o cabeleireiro ficou em silêncio do outro lado da linha.
Oito dias depois, Rowe passou a atacar Stuart. Mandou várias mensagens curtas, uma atrás da outra. “É um idiota ignorante”, escreveu, junto com um emoji chorando. “Hahaha, tirei a camisinha”.
Stuart ficou atordoado.
Colegas de escola
Peter, que se encontrou com Rowe já no segundo semestre de 2015, acabou reconhecendo o ex-colega de escola. Confidenciou que sempre o achou atraente. “Era muito bonito”, diz.
Rowe foi muito direto. Deixou claro logo no início que queria transar sem camisinha. Quando Peter lhe perguntou se era seguro, o cabeleireiro o chamou de paranoico – da mesma forma que fez com Stuart.
Por dias, Peter pensou que Rowe estava brincando com ele
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Depois do encontro, recebeu uma mensagem de Rowe na qual ele confirmava ser HIV positivo.
Peter, desesperado, respondeu implorando para que o cabeleireiro dissesse que não era verdade.
Rowe não respondeu logo. “Ele está inventando”, pensou Peter. “Está sendo infantil.”
‘Parecia uma boa pessoa’
Andrew também conheceu Rowe por meio de um aplicativo de encontros.
“Ele era muito bonito e parecia uma boa pessoa”, recorda. “Até então, não tinha nenhum motivo para duvidar disso.”
Quando se encontraram, nenhum dos dois tinha camisinha. Decidiram transar assim mesmo. Andrew passou a noite com ele. Pensou até que o relacionamento poderia ficar mais sério.
Na manhã seguinte, quando entrava no ônibus para voltar para casa, decidiu conferir o celular. Olhou até mesmo aplicativos de encontros e quando Rowe viu que Peter estava “ativo” teve um ataque de raiva.
“Me escreveu imediatamente dizendo que não podia acreditar que estava conectado. ‘É uma escória’, disse”.
Andrew cortou a conversa e decidiu não se encontrar mais com Rowe. Um mês depois, recebeu uma mensagem do cabeleireiro. “Espero que tenha desfrutado das quatro vezes que gozei dentro de você”, escreveu com um emoji sorrindo. “Tenho HIV.”
Profilaxia
Hoje, já há medicamentos capazes de deter a contaminação com HIV.
Uma forma de prevenção importante é Profilaxia Pós-Exposição (PEP). O método consiste em usar medicamentos antirretrovirais durante 28 dias após uma possível exposição ao vírus HIV – e é, inclusive, oferecido pelo SUS no Brasil.
Nem todas as vítimas de Rowe foram diagnosticadas como HIV positivo
Ministério da Saúde/Divulgação
Para ter efeito, contudo, deve ter início no máximo até 72 horas após a exposição. Indica-se o uso de PEP para pessoas que tiveram relações sexuais desprotegidas, sofreram violência sexual ou tiveram acidentes com agulhas ou outros objetos cortantes.
Mas Rowe sempre confessava ser portador do HIV tarde demais para que suas vítimas usassem o método.
Ao verem as mensagens, todos correram para fazer exames.
Nem todos foram contaminados. Andrew bebeu uma garrafa de vinho sozinho em casa. Estava louco de preocupação um dia antes de receber o resultado, que foi negativo.
Peter também saiu ileso. “Fui um dos sortudos, eu acho”. Peter enfrenta a culpa de achar que podia ter ajudado mais gente se tivesse ido à polícia denunciar Rowe logo depois que recebeu a mensagem do cabeleireiro.
Stuart, no entanto, foi contaminado. Assim como Lenny fez meses depois em Brighton, também foi à polícia. Entregou o endereço de Rowe, que morava na Escócia, o número do telefone, cópia das telas com as mensagens que recebeu e uma descrição detalhada da aparência do cabeleireiro.
“Quando recebi meu diagnóstico me dei conta de que devia denunciá-lo. Era um pessoa perigosa que precisava ser detida”, diz Stuart.
Brighton
Em outubro de 2015, Rowe fugiu para a Inglaterra antes que a polícia o chamasse para prestar esclarecimentos. Não deixou endereço, não tinha conta em banco e mudou o telefone.
Mas continuou usando o mesmo aplicativo para encontrar vítimas e contou para os pais para onde estava indo.
“Nos disse que ia para Brighton porque era a capital gay do Reino Unido e que sua vida poderia ser bem melhor lá”, conta a mãe adotiva, Jacqui. “Disse que poderia conseguir um trabalho como cabeleireiro. Tinha resolvido a questão da moradia. Parecia uma mudança positiva e ficamos felizes por ele.”
Mas foi em Brighton que Rowe conheceu Lenny e repetiu o que tinha feito com Stuart, Peter e Andrew em Edimburgo.
Lenny, que havia se mudando para o Reino Unido, tinha uma história muito dolorosa com relação ao HIV. Seus pais morreram de Aids nos anos 1980. “Meu pai era usuário de drogas e se contaminou com uma agulha infectada. Ele passou para minha mãe.”
Depois disso, Lenny prometeu a si mesmo que nunca iria se expor à possibilidade de contrair HIV.
“Cresci dizendo que nem em um milhão de anos iria deixar me contaminar. Não queria ter de dizer que tenho HIV.”
Lenny diz não saber como Rowe furou a camisinha. “Confiei nele.”
Lenny denunciou Rowe à polícia em fevereiro de 2016, depois que soube de outros quatro casos parecidos.
A polícia prendeu o cabeleireiro e o interrogou. Investigavam casos envolvendo sete homens. Mas ao apreenderem o telefone de Rowe descobriram que ele havia feito o mesmo com centenas de homens. Todos tiveram contato com o cabeleireiro e, em seguida, foram informados por ele que era portador de HIV.
Em um vídeo da polícia, filmado durante o primeiro interrogatório, Rowe pode ser visto afirmando com muita calma que não sabia que ele tinha HIV. “Eu tive um relacionamento recém-chegando aqui e ele estava desprotegido, eu não fiz nenhum teste desde então e isso me preocupa um pouco”, diz ele.
Mas já havia um ano que Rowe havia sido diagnosticado como soropositivo.
De volta para casaRowe ficou sob a custódia da polícia escocesa. Pagou fiança e pode ficar fora da prisão. Além de ser devidamente monitorado, precisou começar o tratamento contra o HIV.
Ficou com os pais adotivos por três semanas.
A mãe lembra que ele passou por várias famílias até ir morar com ela e o marido, quando tinha oito anos.
Jacqui se lembra das cicatrizes no corpo de Rowe. Ele tinha sido queimado com água quente na infância. “Não teve o melhor começo de vida”, diz a mãe, que também fala que nada justifica o comportamento de Rowe.
Em novembro de 2016, 22 homens já havia denunciado Rowe por tentar contaminá-los intencionalmente.
Depois de ficar uns dias com os pais, o cabeleireiro voltou a fugir. Chegou a Newcastle, ao norte da Inglaterra, usando o nome falso de Gary Cole. E foi com esse nome e perfil igualmente falso num aplicativo que conheceu Tom, um tímido rapaz que vivia com três cachorros.
“Sempre me custou muito aproximar-me de outros homens”, diz Tom. “Eu acho que deve ser por isso que eu sou tão ingênuo.” Rowe usou seus encantos e convenceu Tom a deixá-lo ficar em sua casa por três meses.
No entanto, não demorou muito para começar a manipulá-lo e tentar isolá-lo. “Ele praticamente me trancou em uma caixa, eu não podia nem ver o noticiário”, diz ele.
As polícias inglesa e escocesa acabaram chegando à casa de Tom. Rowe tentou escapar. Mas, dessa vez, não conseguiu. Quebrou uma vértebra ao tentar pular uma janela para ter acesso ao jardim do vizinho.
Tom, que chegou a ficar detido por cinco horas, diz se sentir melhor somente porque não foi contaminado.
Ao voltar para casa, Tom encontrou uma caixa com camisinhas numa das bolsas de Rowe. Estavam todas com as pontas cortadas.
Prisão perpétua
O caso de Daryll Rowe é significativo porque foi a primeira vez que alguém no Reino Unido é condenado por espalhar o vírus de forma intencional.
Também é considerado um caso controverso por suscitar debates sobre a criminalização do HIV.
Rowe foi condenado à prisão perpétua por lesão corporal grave. As mensagens que mandou aos parceiros foram usadas como evidência da intenção deliberada de infectar os homens com quem transou.
Ao dar a sentença, a juíza Christine Henson descreveu seus crimes como “uma campanha determinada de ódio e violência ardilosa”.
Em entrevista à BBC, Rowe pediu desculpas e disse ter sido ingênuo e irresponsável.
“Eu estava desenvolvendo uma relação doentia com o sexo”, ele diz quando perguntado sobre seus crimes.
“Quando fui diagnosticado, estava em negação e me convenci de que ia ser curado com urina, e quase usei isso como uma desculpa para continuar fazendo sexo desprotegido. Na minha cabeça eu pensava: ‘Bem, isso deve ser bloqueado'”. Ele diz esperar que algum dia seja perdoado.
Mas, para as vítimas, a vida nunca mais será a mesma.