Ary Barroso é o autor da música brasileira mais gravada, mas lista reitera a soberania de Tom Jobim


Relação das dez composições mais abordadas em todos os tempos aponta a força do samba ‘Garota de Ipanema’. ♪ ANÁLISE – Assim que Aquarela do Brasil ganhar mais um registro fonográfico, a composição ufanista de Ary Barroso (1903 – 1964) chega à marca de 400 gravações em 81 anos. Mas os atuais 399 registros do samba – composto e lançado em 1939 – já bastam para garantir ao compositor mineiro o primeiro lugar na lista das dez músicas brasileiras mais gravadas ao longo da história do mercado fonográfico.
A soberania de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) está reiterada na relação, pois nada menos do que seis das 10 músicas da lista – divulgada pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) – têm a assinatura do compositor carioca, sendo que o samba Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) merece menção honrosa ao figurar no terceiro lugar com 376 gravações em 58 anos, o que proporcionalmente indica que a música contabiliza mais gravações em menos tempo do que Aquarela do Brasil.
O choro-canção Carinhoso (Pixinguinha, 1917, com letra de Braguinha, 1937), a toada Asa branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947) e o choro a canção Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antônio Maria, 1959) também figuram nessa lista que provoca reflexões sobre a perenidade das canções antigas e sobre o curto prazo de validade das músicas atuais.
Sem entrar no mérito da qualidade musical (embora a produção musical brasileira do século XX seja nitidamente superior do ponto de vista melódico, harmônico e poético ao que lançou a partir dos anos 2000), é cada vez mais difícil encontrar canções que resistam ao tempo na volátil era digital dos singles arremessados a cada semana, como prazo de validade cada vez mais curto.
Hoje nem dá tempo de uma música conquistar o público porque, em questão de dias ou semanas, o artista já vai estar apresentando outra canção para se manter em evidência em playlists que ignoram os nomes dos compositores, os verdadeiros criadores das canções.
Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) é nome recorrente na lista do ECAD, sendo autor de seis das dez músicas brasileiras mais gravadas
Divulgação
Talvez aí esteja o X da questão. Ary Barroso, Tom Jobim, Luiz Gonzaga (1912 – 1989), Pixinguinha (1897 – 1973) foram compositores que faziam música pela expressão artística, não por imposição mercadológica. O sucesso imediato da era digital seduz, mas é geralmente fugaz.
As dez músicas alinhadas na relação do ECAD são obras-primas que evidenciam em qualquer tempo a maestria dos respectivos compositores na arte da composição. É música em forma de arte, não de produto.
Por mais que haja bons compositores e boas músicas na vasta produção fonográfica brasileira do século XXI, e há, sim, parece cada vez mais difícil para uma música escapar do segmento ao qual foi enquadrado o intérprete original.
O mercado da música está cada vez mais segmentado, o que pode ser fatal para a sobrevivência de uma canção em país de dimensões continentais como o Brasil. Para uma música atravessar gerações em sucessivas gravações, ela precisa ser ouvida por público amplo e heterogêneo, como foram as dez composições mais gravadas na história da música popular do Brasil.
♪ Eis as dez mais, de acordo com o ECAD:
1. Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939) – 399 gravações em 81 anos
2. Carinhoso (Pixinguinha, 1917, com letra de Braguinha, 1937) – 389 gravações em 103 anos (ou 83 anos, se levado em conta que a letra foi apresentada vinte anos após a música)
3. Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) – 376 gravações em 58 anos
4. Asa branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947) – 304 gravações em 73 anos
5. Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antônio Maria, 1959) – 276 gravações em 61 anos
6. Eu sei que vou te amar (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) – 257 gravações em 61 anos
7. Wave (Antonio Carlos Jobim, 1967) – 238 gravações em 53 anos
8. Corcovado (Antonio Carlos Jobim, 1960) – 228 gravações em 60 anos
9. Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958) – 228 gravações em 62 anos
10. Desafinado (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1959) – 216 gravações em 61 anos