Apple diz que limitou aplicativos de controle parental da App Store para ‘proteger a privacidade’


Empresa foi acusada de ter restringido aplicativos após lançar seu próprio recurso de ‘Tempo de Uso’. Aplicativos de espionagem usavam tecnologia destinada a monitoramento empresarial para controle dos pais, segundo a Apple
Nicole McDaniel/Freeimages.com
A Apple, fabricante do iPhone, afirmou que agiu para restringir e remover alguns aplicativos de controle dos pais da sua loja de aplicativos para iPhone e iPad, a App Store, após saber que eles utilizavam um recurso invasivo destinado a soluções de monitoramento empresarial. Isso, segundo a empresa, poderia colocar usuários em risco.
A imprensa norte-americana, incluindo o “New York Times” e a “CNN”, insinuaram que a Apple estaria limitando a funcionalidade de aplicativos de terceiros após o lançamento da função de “Tempo de Uso” no iOS 12. O recurso, que permite analisar o tempo gasto em apps e definir limites, é gratuito para quem possui um iPhone compatível e pode ser usado para controlar o que as crianças fazem no aparelho.
De acordo com uma reportagem do jornal “New York Times”, a Apple teria começado a remover ou restringir aplicativos de controle dos pais na App Store depois do anúncio do recurso de “Tempo de Uso”, em setembro. Dos 17 aplicativos mais populares do gênero na App Store, 11 foram removidos ou restringidos.
De acordo com um comunicado da Apple publicado neste domingo (28), as restrições não tiveram relação com a concorrência representada por esses aplicativos, e sim com a segurança dos usuários.
A Apple explicou que tomou conhecimento de que esses aplicativos usavam recursos destinados a empresariais chamados de MDM (sigla em inglês para “gerenciamento de dispositivos móveis”). Esse recurso permite que empresas monitorem o uso de celulares entregues a funcionários para controlar a exposição e a transmissão de dados.
Esse recurso, no entanto, também pode ser muito útil para hackers. Na prática, esses aplicativos de controle parental que se valiam do MDM podiam ter uma segunda face como programas espiões destinados a várias circunstâncias.
“Pais não devem ter que escolher entre se preocuparem com o que filho faz no telefone e os riscos para a privacidade e segurança, e a App Store não deve ser uma plataforma que os obrigue a fazer essa escolha. Ninguém, além de você, deve ter acesso irrestrito para gerenciar o dispositivo do seu filho”, diz o comunicado da Apple.
A fabricante do iPhone disse ainda que está comprometida com a construção de um ecossistema inovativo e competitivo para aplicativos. Segundo o comunicado, os desenvolvedores dos aplicativos tiveram 30 dias para se adequarem às normas da empresa – quem não se adequou a tempo teve o app removido da loja.
Aplicativos empresariais, que utilizam o MDM, podem ser instalados pelo canal empresarial oferecido pelo iPhone, que não envolve diretamente a App Store.
A explicação da Apple faz sentido?
Muitos aplicativos de espionagem de fato são comercializados como “programas de monitoramento”. Isso já acontecia com programas para computadores, mas se tornou ainda mais comum em celulares, onde esses apps precisam de legitimidade para serem listados nas lojas oficiais de aplicativos. Um programa de espionagem que se assumir como tal não vai conseguir aparecer nas lojas.
Dados vazados de programas comercializados para “monitoramento parental” sugerem que esses programas são usados para a espionagem do cônjuge, por exemplo, o que é ilícito, e coletam informações bastante particulares, como tokens de autenticação (equivalente à senha).
A Apple diz que ficou sabendo dos problemas envolvendo o monitoramento por MDM no início de 2017 e publicou normas relacionados ao uso dessa tecnologia em meados daquele ano.
Uma hipótese é que a Apple pode ter percebido a necessidade de fortalecer os recursos de controle parental do iPhone e decidido investir na criação do recurso de Tempo de Uso para evitar que as pessoas sejam expostas a aplicativos de qualidade duvidosa.
Quando o recurso ficou pronto, a Apple decidiu fazer valer as regras de privacidade para aplicativos a App Store. Assim, convenientemente, quem perdeu o aplicativo que usava poderia recorrer ao recurso embutido pela própria Apple.
Em situações como esta, é bastante difícil determinar se houve uma preocupação da Apple com quem dependia desses aplicativos ou se a empresa quis mesmo se aproveitar da mudança para obrigar usuários de iPhone a migrar para o recurso nativo do sistema.
Seja como for, as razões apresentadas pela fabricante do iPhone são muito coerentes. O blog Segurança Digital apurou que alguns aplicativos de espionagem ainda estão com compatibilidade reduzida para o iOS 12 e não funcionam nessa versão do sistema ou apresentam funcionalidade reduzida – o que é um ganho para usuários do iPhone.
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