Antônio Maria, eterno ‘menino grande’ nascido há 100 anos, perdura na romântica memória carioca da década de 1950


Legado do compositor e cronista pernambucano inclui obras-primas como ‘Valsa de uma cidade’, ‘Manhã de Carnaval’ e ‘Ninguém me ama’. ♪ MEMÓRIA – Compositor, cronista e radialista que marcou os dourados anos 1950, Antônio Maria Araújo de Morais (17 de março de 1921 – 15 de março de 1964) veio ao mundo no Recife (PE), há exatos 100 anos, e nunca negou a origem pernambucana.
A herança musical da terra natal está perpetuada na série de frevos que Maria compôs e que batizou com o nome da cidade do artista. Lançado há 70 anos, o Frevo nº 1 do Recife (1951) ainda reverbera na memória afetiva do Brasil pela beleza melódica e poética que atrai intérpretes como Maria Bethânia.
Contudo, é impossível falar de Antônio Maria sem identificá-lo com a cidade do Rio de Janeiro (RJ), para onde migrou em 1948, e não somente porque ele é o compositor – em parceria com Ismael Netto (1925 – 1956) – da Valsa de uma cidade (1954), flash iluminado de um Rio antigo, com calçadas cheia de gente feliz a passar.
Calçadas que, mesmo que os versos de Maria omitam, são de Copacabana, bairro que se tornou o epicentro da boemia carioca no reinado de Antônio Maria e do samba-canção.
Sim, Antônio Maria foi homem da noite, dos uísques, das boates esfumaçadas cuja trilha sonora era este gênero musical primo do bolero e irmanado na mesma dor de amor.
A alma carioca de Antônio Maria desconstruiu a imagem de felicidade associada aos cartões-postais do Rio. Assumido cardiodisplicente, Maria foi um homem que amou demais e que, por isso mesmo, sofreu demais.
A ternura antiga de Menino grande (1952) – sucesso inicial do compositor, apresentado ao Brasil na voz grave e soturna da cantora Nora Ney (1922 – 2003) – sinalizou que o menino grande era ele próprio, Maria, garoto maroto, carente de amor. Vítima do (des)amor.
A habilidade para cair na fossa foi perpetuada na letra do samba-canção Ninguém me ama (1952), pérola da desilusão composta por Maria com o parceiro conterrâneo Fernando Lobo (1915 – 1996) e lapidada no canto da recorrente Nora Ney no mesmo ano consagrador de Menino grande.
De sucesso em sucesso, Antônio Maria atravessou a longa noite da modernista década de 1950 entronizado no posto de um dos melhores cronistas e compositores do Brasil. Refratário à onda musical que se ergueu no mar carioca em 1958, Maria foi tragado por essa onda ao escrever a letra de Manhã de Carnaval (1959) para a música do compositor e violonista Luiz Bonfá (1922 – 2001).
Manhã de Carnaval, tão bonita, conquistou o mundo com bossa toda própria. Mas o mundo de Antônio Maria era bem menor e cabia na área que abrigava as boates e os jornais cariocas. Tanto nestes, como naquelas, Maria batia ponto com paixão pela vida que parecia lhe pesar nos ombros.
“Se eu morresse amanhã de manhã / Não faria falta a ninguém”, vaticinou em versos do samba-canção Se eu morresse amanhã (1953), outra joia do gênero, lustrada nas vozes de cantoras como Aracy de Almeida (1914 – 1988) – intérprete que apresentou o samba-canção Quando tu passas por mim (de Maria e Vinicius de Moraes) no mesmo ano de 1953 – e Dircinha Batista (1922 – 1999).
Antônio Maria morreu aos breves 43 anos, vítima de peça lhe pregada pelo coração sobrecarregado por tantos amores. Fez falta para muita gente, mas não para Dolores Duran (1930 – 1959), porque a intérprete original da Canção da volta (1955) – outra obra-prima da parceria de Maria com Ismael Neto – já tinha saído de cena há cinco anos, também vítima do coração.
Decorridos 100 anos do nascimento de Antônio Maria, o artista pernambucano perdura como compositor e cronista na memória romântica do Rio de Janeiro dos dourados anos 1950.