Anísio Silva, um rei centenário dos boleros lacrimosos


Intérprete original de ‘Alguém me disse’, hit ‘blockbuster’ de 1960, faria 100 anos nesta quarta-feira, 29 de julho. ♪ MEMÓRIA – Quando Gal Costa lançou o álbum Plural em março de 1990, a gravadora BMG-Ariola elegeu a regravação do bolero Alguém me disse (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1960) como o primeiro single promocional do disco.
Para muitos seguidores da carreira da cantora, o bolero soou como música inédita, mas tinha sido lançado há então 30 anos por Anísio Silva (29 de julho de 1920 – 18 de fevereiro de 1989), cantor e compositor baiano que tinha morrido um ano antes de Gal reviver Alguém me disse sem reeditar o efeito blockbuster do registro original de Anísio.
Anísio Silva morrera esquecido. E permanece esquecido no centenário de nascimento. Sim, faz 100 anos nesta quarta-feira, 29 de julho de 2020, que Anísio Silva veio ao mundo no interiorano município baiano de Catulé (BA).
Em parte, esse esquecimento é fruto de o cantor ter saído definitivamente de cena em 1975 após várias interrupções na carreira – a primeira ainda no auge, no fim de 1964. A pecha de cafona – atribuída ao cantor menos pelo registro vocal e mais pelo caráter sentimental do repertório de Anísio – também contribuiu para que pouco se fale deste cantor surgido na era do rádio.
O bolero Alguém me disse foi o maior sucesso da carreira fonográfica de Anísio Silva, tendo atingido números expressivos de vendas em 1960. Fala-se em um milhão e até em dois milhões de singles vendidos.
Embora esses números possam ter sido provavelmente inflados, em ação de marketing facilitada pela dificuldade de auferir vendas de discos na época, eles dão a dimensão do sucesso de Anísio Silva na fase inicial da carreira iniciada no rádio em 1952, já na cidade do Rio de Janeiro (RJ), epicentro da cultura nacional nos anos dourados.
Anísio Silva em 1975 na capa do último álbum do cantor
Reprodução / Capa do LP ‘Anísio Silva’
Alguém me disse foi o maior hit do cantor, mas não o primeiro. Em 1957, ano em que foi contratado pela gravadora Odeon, Anísio já emplacou de cara um sucesso, Sonhando contigo, composição de autoria do artista em parceria com Fausto Guimarães.
Na sequência, vieram os álbuns. Muitos. Entre recessos e retornos, Anísio Silva lançou dez álbuns pela Odeon entre 1958 e 1968. Alguns desses discos – casos de Só penso em ti (1962), O romântico (1962) e Estou chorando por ti (1964) – já sinalizaram no título o tom sentimental do repertório choroso de Anísio Silva, pioneiro da sofrência de aura kitsch.
Foi assim até o último álbum, intitulado somente Anísio Silva e lançado em 1975 pelo selo Som, da gravadora Copacabana, com repertório quase inteiramente autoral, assinado pelo compositor com o parceiro Elias Soares.
Poucos ouviram. Como poucos hão de lembrar hoje desse cantor que jorrava lágrimas na voz emitida sem empostação.
Na seara da lembrança, Anísio Silva jamais teve a sorte de legítimos sucessores como Altemar Dutra (1940 – 1983) e Paulo Sérgio (1944 – 1980), outros reis da canção sentimental que permanecem devidamente entronizados na memória afetiva dos respectivos seguidores.