Animais estão sofrendo mudanças corporais por causa do aquecimento global, sugere pesquisa


Cientistas australianos descobriram que, com o aumento das temperaturas, pássaros com bico maior tendem a ser favorecidos, porque conseguem dissipar melhor o calor – mas alertam que nem todos os animais serão capazes de se adaptar às mudanças climáticas. A cacatua-de-gangue (‘Callocephalon fimbriatum’) é uma das espécies apontadas pelos cientistas como as que sofreram mudanças no corpo por causa do aquecimento global.
Luke Durkin/Wikimedia
Pesquisadores australianos constataram que alguns animais – principalmente pássaros – estão sofrendo mudanças corporais por causa do aquecimento global.
Os cientistas Sara Ryding e Matthew Symonds, da Universidade Deakin, em Melbourne, examinaram, com outros colegas, estudos feitos sobre o corpo de várias espécies ao longo de décadas.
Em uma revisão publicada no dia 7 na “Trends in Ecology & Evolution”, da revista “Cell”, eles concluíram que, com o aumento das temperaturas do planeta, os pássaros que têm bico maior tendem a ser favorecidos, porque conseguem dissipar calor de forma mais eficiente.
Isso porque o bico dos pássaros é vascularizado, ou seja: tem corrente sanguínea. Quanto mais quente fica do lado de fora, mais o animal direciona o fluxo sanguíneo para o bico – para dissipar mais calor. Dessa forma, consegue manter a temperatura corporal estável (como os humanos fazem ao suar).
A cacatua-de-gangue (‘Callocephalon fimbriatum’) é uma das espécies apontadas pelos cientistas como as que sofreram mudanças no corpo por causa do aquecimento global.
Peter B Kraehenbuehl/Wikimedia
Menino de 3 anos se perde e sobrevive três dias sozinho em mata na Austrália
Por causa desse mecanismo, quanto maior for o bico do pássaro, mais rápido ele consegue se resfriar. Isso significa que os pássaros que têm bico maior conseguem se adaptar melhor ao aumento da temperatura externa.
(Não significa, entretanto, que os pássaros estejam desenvolvendo, “de propósito”, bicos maiores para se adaptar ao calor).
Espécies afetadas
Segundo Ryding e Symonds, as mudanças aparecem em várias espécies de pássaros. Na Austrália, por exemplo, eles apontam estudos anteriores mostrando que o tamanho do bico de cacatuas-de-gangue (Callocephalon fimbriatum) e de papagaios-ruivos (Psephotus haematonotus) aumentou entre 4% e 10% desde 1871.
O papagaio-ruivo (‘Psephotus haematonotus’) é outra espécie apontada pelos pesquisadores como uma das que passaram por mudanças corporais por causa do aquecimento global.
patrickkavanagh/Wikimedia
Na América do Norte, o junco-de-olhos-escuros (Junco hyemalis) mostra uma associação entre o aumento do tamanho do bico e os extremos de temperatura relativa de curto prazo em ambientes tipicamente frios.
Os pássaros também não são os únicos afetados: partes do corpo de mamíferos também estão aumentando de tamanho.
No musaranho-mascarado (Sorex cinereus), o comprimento da cauda e da perna aumentou significativamente desde 1950, apontam os pesquisadores. E, no grande-morcego-de-folha-redonda (Hipposideros armiger), o tamanho das asas aumentou 1,64% no mesmo período.
Mudanças corporais e aquecimento global: na América do Norte, o junco-de-olhos-escuros (Junco hyemalis) mostra uma associação entre o aumento do tamanho do bico e os extremos de temperatura relativa de curto prazo em ambientes tipicamente frios.
Cephas/Wikimedia
“A variedade de exemplos indica que a mudança de forma está acontecendo (…) em uma variedade de animais, em muitas partes do mundo. Porém, mais estudos são necessários para determinar quais tipos de animais são os mais afetados”, escreveram os dois cientistas para o site “The Conversation”.
Alerta
Mas os pesquisadores também fazem um alerta: nem todos os animais serão capazes de se adaptar dessa forma às mudanças climáticas.
“Embora nossa pesquisa mostre que alguns animais estão se adaptando às mudanças climáticas, muitos não irão. Por exemplo, alguns pássaros podem ter que manter uma dieta específica, o que significa que não podem mudar o formato do bico. Outros animais podem simplesmente não ser capazes de evoluir com o tempo”, disseram, no mesmo texto.
Mais de 200 revistas divulgam alerta: ‘fracasso na luta contra o aquecimento é a maior ameaça à saúde global’
Eles apontam que, embora seja importante prever como os animais selvagens vão se adaptar às variações no clima no futuro, a melhor maneira de protegê-los é “reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa e evitar o máximo possível o aquecimento global”.
Veja VÍDEOS de natureza e meio ambiente: