Anfavea reconhece ameaça de carros da UE à indústria brasileira e convoca ‘corrida contra o tempo’ por competitividade


Para presidente da associação das montadoras, Brasil terá de melhorar custos de produção para enfrentar concorrência e exportar mais após acordo que prevê tarifa zero para bloco europeu. Presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, diz que indústria precisa correr contra o tempo para ser mais competitiva, diante da decisão de zerar impostos sobre carros vindos da União Europeia em 15 anos
Luciana de Oliveira/G1
A associação das montadoras (Anfavea) reconheceu nesta quinta-feira (4) que o fim do imposto de importação para carros feitos na União Europeia é uma ameaça à indústria automotiva brasileira e convocou uma “corrida contra o tempo” por competitividade.
A eliminação da tarifa está prevista no recém-anunciado acordo entre o bloco e os países do Mercosul, que ainda não tem data para começar a valer — para a Anfavea, isso deve demorar 2 anos.
Quando ele entrar em vigor, os veículos europeus terão tarifa reduzida gradualmente, até ela ser eliminada, dentro de 15 anos (veja mais ao fim da reportagem).
O novo presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, disse que agora a indústria nacional tem um prazo para buscar mais competitividade, referindo-se ao tempo até que o imposto para a UE seja zerado.
“O (eventual) aumento da importação é uma ameaça, mas a gente tem que atacar isso”, afirmou Moraes. “Atacar a competitividade torna-se (algo) para ontem.”
Por competitividade, entende-se custo de produção de um carro no país.
A Anfavea não diz não ter calculado o quão mais caro é fazer um automóvel no Brasil, mas divulgou, no começo do ano, um estudo comparando a indústria local com a mexicana, uma das que mais exportam.
De acordo com o levantamento, produzir um carro no México custa 18% menos do que no Brasil, sendo as principais diferenças em (gastos com) materiais e logística. “O ‘gap’ (diferença) em relação à União Europeia certamente é muito maior”, afirmou Moraes.
Segundo o executivo, o Brasil precisa ser mais competitivo não só por conta do acordo com a UE, mas porque outros pactos serão acertados.
“Vem (acordo) com Japão, Canadá e Coreia do Sul”, adiantou.
Ainda nesta quarta, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, disse que discute com o Brasil um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.
Considerando a chance de exportar mais, o presidente da Anfavea entende que não é o caso de a indústria local se equiparar aos europeus em todos os produtos, mas “focar no que a gente pode ser melhor”.
Como exemplo, Moraes citou a possibilidade de produzir e vender ao exterior carros híbridos que aceitem gasolina e etanol, uma novidade já anunciada pela Toyota para o mercado nacional.
Mesmo tendo reconhecido desafios para as montadoras, o executivo comemorou o acordo como um todo: “Agora estamos na Champions League (Liga dos Campeões, o maior torneio do futebol europeu)”.
E destacou que a indústria automotiva também poderá ser beneficiada por medidas ligadas a outros setores, como o agronegócio.
O Brasil exporta para a UE?
O presidente da Anfavea informou que o novo acordo também prevê redução de tarifas pelo bloco europeu para carros fabricados no Mercosul, contrapartida que não fica clara nos textos preliminares divulgados até agora pelo governo e a União Europeia.
Esses princípios ainda serão revisados e o texto final do pacto terá de ser aprovado pelo Parlamento Europeu e os congressos de todos os países do bloco sul-americano.
“As UE vai reduzir tarifas de importação (para carros do Mercosul) em até 90% em 10 anos”, afirmou Moraes.
Mas a exportação para a Europa ainda é baixa. Segundo a associação, o Brasil vendeu cerca de 2 mil veículos para o bloco no ano passado, a maioria carros. O montante é pouco perto dos 630 mil exportados ao longo de 2018, a grande maioria para a Argentina.
De acordo com dados do antigo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), em termos de valores, ao todo, foram vendidos US$ 5,1 bilhões em carros para o exterior no ano passado.
Desse montante, pouco mais de US$ 13 milhões foram em exportações para a União Europeia, o que representa menos de 0,3% do total.
Entre os países do bloco europeu, a Alemanha foi quem mais comprou carros brasileiros, ainda pelo ranking em valores. Foram US$ 4,8 milhões, em 2018. Em seguida ficaram Bélgica (US$ 4,5 milhões), França (US$ 1,1 milhão) e Itália (US$ 686 mil).
15% dos carros vêm da UE
A balança comercial entre União Europeia e Brasil, considerando a venda de carros, ainda é bem desequilibrada.
Tendo vendido cerca de US$ 13 milhões ao bloco europeu, o Brasil comprou US$ 661 milhões em automóveis da UE no ano passado, ainda segundo dados do governo federal.
O valor equivale a 15,6% do total de importações de carros, que foi de US$ 4,19 bilhões.
A maior parte dos modelos trazidos de fora do Brasil vem da Argentina, onde a maioria das grandes marcas têm fábrica, aproveitando a isenção da tarifa de importação e do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), vantagens que existem para comércio entre países do bloco sul-americano.
Entre os europeus, a Alemanha também foi quem mais exportou veículos para o Brasil no ano passado, ainda em termos de valores: US$ 253 milhões, ou pouco mais de 5% do total comercializado.
Em seguida, aparecem Reino Unido (US$ 131 milhões), França (US$ 86,4 milhões) e Suécia (US$ 48,9 milhões).
Redução gradual do imposto
A redução de imposto de importação do Mercosul para carros da União Europeia acontecerá de duas formas, segundo a Anfavea:
– primeiro, uma cota anual de 50 mil veículos (32 mil só para o Brasil) vai pagar metade da alíquota, que hoje é de 35%. Isso vale para os primeiros 7 anos do acordo;
– a partir do 8º ano, o imposto começa a cair para todos os carros da UE, gradualmente. As alíquotas devem ficar assim:
ano 8: 28,4%
ano 9: 21,7%
ano 10: 15%
ano 11: 12,5%
ano 12: 10%
ano 13: 7,5%
ano 14: 5%
ano 15%: 2,5%
ano 16: zero
Também haverá redução “linear” do imposto para autopeças, diz a associação, entre 10 e 15 anos.