Andreas Kisser diz que Sepultura vive ‘momento melhor na carreira em todos os aspectos’ sem irmãos Cavalera


Banda lança álbum ‘SepulQuarta’, baseado em lives com convidados; guitarrista diz que nunca cogitou chamar ex-colegas Iggor e Max, que banda está mais unida e critica ‘turnê de disco velho’. Sepultura, com Andreas Kisser à esquerda, lança o álbum ‘SepulQuarta’
Marcos Hermes / Divulgação
Gravar um álbum do Sepultura em casa, cheio de limitações, fez Andreas Kisser se lembrar do seu início na música: “Você tem aquele momento único e solitário, não tem uma banda ainda, está cheio de sonhos, aprendendo os primeiros riffs”, compara.
As limitações viraram a força de “SepulQuarta”, novo álbum do Sepultura baseado nas lives com convidados feitas durante a quarentena por conta da pandemia. São 15 faixas recentes e antigas com músicos com origens diversas, de Megadeth e Anthrax a Paralamas do Sucesso e Titãs. Veja a lista.
Sem superprodução, o projeto reforça uma lição: “No estúdio você pode ser quinze bandas diferentes. Mas ao vivo é quando você soa como você mesmo, mais verdadeiro. E o SepulQuarta é mais verdadeiro por isso”, reflete o guitarrista.
Sem nostalgia
Uma coisa é notar a força da simplicidade e se lembrar de quando ele só “sentava com a guitarra e tentava tirar nota por nota”. Outra, bem diferente, seria ver com nostalgia a antiga formação da banda, com o vocalista Max Cavalera, que saiu em 1996, e o irmão e baterista Iggor, que saiu dez anos depois.
Há faixas de todas as fases da carreira, incluindo “Quadra”, lançado logo antes da pandemia. Em uma época de tanta nostalgia musical como a da quarentena, e num projeto com tantos “feats”, será que houve ao menos a hipótese de um convidado com sobrenome Cavalera? “Não teve”, diz Andreas.
“Não vejo a coisa dos Cavalera como nostálgica, vejo como um fato histórico da banda. A gente está num momento muito melhor da nossa carreira em todos os aspectos: de união, de respeito entre os músicos, de clareza de comunicação com os empresários e dos objetivos da banda”, ele diz.
“Se a gente fosse nostálgico, não estaria aqui hoje. Estaria tentando inventar turnê para tocar o disco ‘Arise’ inteiro ou fazendo celebração de disco velho, coisa que a gente não faz”, diz Andreas. Iggor e Max estão em uma turnê em que tocam na íntegra os discos do Sepultura “Beneath The Remains” (1989) e “Arise” (1991).
O que empolga Andreas é falar do disco novo, em que o Sepultura não perdeu o peso nem tocando no quarto: “Acho que o peso está na performance, na atitude, não no equipamento. Você pode colocar um guitarrista de jazz tocando no meu equipamento, vai sair outra coisa. A pegada está na mão de cada músico”, ele ensina. Leia os principais momentos da entrevista:
Andreas Kisser durante show do Sepultura no palco Mundo do Rock in Rio 2019
Marcelo Brandt/G1
G1 – Vocês tinham acabado de lançar o ‘Quadra’ quando começou a pandemia. Como foi o momento do balde de água fria, antes de começar as lives?
Andreas Kisser – A gente estava pronto para sair em turnê. O disco tinha saído em fevereiro. A gente já estava ensaiando, preparando show. Dois dias antes de pegar o voo, tudo fechou. Aeroporto, fronteira, os shows caindo, tudo cancelando.
Nessa incerteza, sem poder sair de casa, o Derrick [Green, vocalista] em Los Angeles, a banda aqui, a gente teve que inventar uma maneira de continuar o contato com os fãs, falar do disco, tocar as músicas.
Criamos nosso evento toda quarta-feira e aquilo foi evoluindo. A gente começou a produzir cada um na sua casa o áudio, convidar músicos amigos. A gente não estava pensando em fazer um disco.
Isso até o final de 2020, quando resolvemos parar e percebemos que tinha um material fantástico nas mãos. Aí fizemos mixagem, masterização, escolhemos quinze músicas e organizamos num disco.
G1 – Além do aprendizado da pandemia, como foi o aprendizado musical de montar as músicas mesmo, de gente que gravou em lugares diferentes.
Andreas Kisser – Começou bem básico. Aos poucos, começamos a gravar mesmo. O Eloy [Casagrande] fazia a bateria, eu fazia a minha parte, o Paulo [Jr, baixista] fazia a dele, e eu mesmo mixava.
G1 – Que legal, você mixava?
Andreas Kisser – É, eu não sou um mixer profissional, mas eu mesmo editava no meu Pro Tools [programa de áudio], colocava tudo na ordem, o nosso webmaster editava os vídeos e pronto.
Era uma coisa de trabalhar nos nossos limites da pandemia, não ficar pensando em muita produção. Por isso é um disco tão honesto e espontâneo. Ele não é nem ao vivo e nem de estúdio. É nesse formato novo: cada um na sua casa. Teve vocalista que gravou vocal dentro do banheiro.
O Derrick teve que gravar umas vozes meio baixo porque os vizinhos estavam reclamando que ele estava gritando.
O Charles Gavin mandou a bateria dele no quintal da fazenda, só com áudio do telefone. A gente mostrou que é possível fazer arte com qualidade sem ter que ficar rodando muita lâmpada, acreditando mais no momento, na espontaneidade da expressão.
A gente viu que o Sepultura é possível muito além do palco e da turnê. Mas através da tecnologia e das limitações, recriamos um Sepultura e hoje a gente está muito mais forte do que nunca ao ver que a gente pode criar coisas dentro de uma situação completamente adversa e indesejada. E, ao mesmo tempo, aprender essas regras novas e jogar esse jogo com elas.
Sepultura
Marcos Hermes / Divulgação
G1 – Fiquei curioso, por exemplo, na faixa como Charles e com o João Barone. O fato de serem dois bateristas, mais a bateria do Sepultura, foi um desafio técnico?
Andreas Kisser – Foi muito fácil, a coisa mais fácil do mundo. Não foi ao vivo e nem em estúdio. Imagina ao vivo: três baterias, vários roadies, vários microfones, uma mesa gigantesca, vários canais, passagem de som. É possível, mas é um trabalho absurdo. No estúdio a mesma coisa.
Nesse aspecto, a gente não teve nada. Como eu disse, o Charles Gavin gravou no quintal, o Barone tinha o estúdio dele e o Eloy também. Mandaram para mim e eu coloquei no lugar. O Eloy tinha organizado com o João e Charles os cliques, fez um mapa da música e tudo se encaixou perfeitamente.
Então o SepulQuarta foi muito possível de juntar tanto convidado. Imagina juntar tanta gente para fazer um show. É uma logística gigantesca. Mas a gente fez quarta por quarta, de abril a dezembro.
A gente viu que é muito polivalente esse repertório do Sepultura, que possibilita várias participações e situações diferentes.
G1 – Quando eu soube que iam gravar um álbum disso, fiquei em dúvida sobre o peso. Você disse que teve gravação no banheiro, ou no quarto com vizinho xingando. Mas quando ouvi já a primeira faixa, ‘Territory’, com o Dave Eleffson [ex-Megadeth], vi que tinha peso. Você também teve essa dúvida?
Andreas Kisser – A gente não teve dúvida, teve o que tinha na mão. Quando tem que trabalhar com certos elementos, fica mais criativo.
Acho que o peso está na performance, na atitude, não no equipamento. Você pode colocar um guitarrista de jazz tocando no meu equipamento, vai sair outra coisa. E vice-versa. A pegada está na mão de cada músico.
No SepulQuarta, o peso está na performance. Não está na dependência de um plugin, num pedal, numa distorção de estúdio. A gente vai para o estúdio e tem esse defeito de pensar demais. Você trabalha a demo, fica meses escrevendo, faz a pré-produção, e toda vez a gente fala: essa parte na demo ficou muito melhor (risos.). Porque a demo é mais espontânea.
No estúdio você fica assim: tem que ser perfeito. E não existe perfeito. Cada um tem um conceito do que é perfeito. Voce tem que ter um equilíbrio entre a banda e o produtor para buscar o melhor som, mas nunca perder o lance da performance.
O que a gente tem que ter como sagrado num disco do Sepultura é tentar fazer o que a gente faz no palco. Porque a música é ali. No estúdio você pode ser quinze bandas diferentes. Mas ao vivo é quando você soa como você mesmo, mais verdadeiro. E o SepulQuarta é mais verdadeiro por isso.
Algumas pessoas deram essa relação com o começo da nossa carreira, quando você senta com a guitarra na frente do som e começa a tirar nota por nota. E você tem aquele momento único e solitário, não tem uma banda ainda, está cheio de sonhos, aprendendo os primeiros riffs.
O SepulQuarta resgatou um pouco disso de todos os músicos que têm muita estrada e começaram assim. Nós começamos igual. Seja nos EUA, Brasil ou Europa, a gente tem mutia semelhança na maneira de como começou.
Sepultura abre palco Mundo no quinto dia do Rock in Rio 2019
Marcelo Brandt/G1
G1 – Nessa onda das lives rolou muita nostalgia. Teve o fenômeno do pagode dos anos 90, por exemplo, em que as pessoas lembravam e se sentiam acolhidas por essa lembrança. Essa nostalgia musical dava uma segurança emocional. Eu queria saber se teve algum papo, algum pensamento, ou alguma possibilidade de chamar os Cavalera para algum desses papos.
Andreas Kisser – Puta cara, acho que a sua relação com o pagode os cavalera… (Risos)
G1 – (Risos) Mas a nostalgia…
Andreas Kisser – Não, não teve. Acho que a conexão é sua, nunca teve essa conexão. Eu não vejo uma coisa dos Cavalera como nostálgica, eu vejo como um fato histórico da banda. A gente está num momento muito melhor da nossa carreira em todos os aspectos: de união, de respeito entre os músicos, de clareza de comunicação com os empresários e os objetivos da banda.
A gente está num outro momento. Não existe nostalgia. Nostalgia pode ser por sua parte, mas não dentro da banda. Não adianta jogar um sentimento que a gente não tem para fazer uma conexão e envolver o nome dos irmãos de alguma forma. SepulQuarta não tinha essa missão ou essa possibilidade. SepulQuarta mexe com o presente.
A gente estava trabalhando com os elementos da atualidade, dentro dos limites da pandemia criamos o SepulQuarta e temos um disco que saiu disso. Onde tem nostalgia aí?
Max e Iggor Cavalera, ex-membros do Sepultura
Reprodução/ TV Mirante
G1 – As pessoas queriam resgatar o passado nessas lives.
Andreas Kisser – Algumas sim, não todas, você não pode generalizar. Algumas pessoas queriam, nós não. Tanto que a gente teve nosso “storyteller” (sic) em que a gente contava nossas histórias, relembrando tours, relembrando gravação de disco, falamos com roadies antigos. Isso a gente sempre fez. Fizemos o documentário também [“Sepultura Endurance”, de 2017].
Mas é o que eu digo: não é uma coisa nostálgica. É um fato histórico. Você está lembrando aquilo que faz parte da sua vida. Não é uma maneira de querer voltar ao passado, ou criar situações que não existem mais. O SepulQuarta é uma coisa de presente. Aliás, o Sepultura é um presente.
Se a gente fosse nostálgico, não estaria aqui hoje. Estaria tentando inventar turnê para tocar o disco “Arise” inteiro ou fazendo celebração de disco velho, coisa que a gente não faz.
A gente está fazendo coisa do hoje, do presente. Criando o Quadra, o SepulQuarta. Então aqui não existe nostalgia.