Anak Krakatau: Como erupção de vulcão provocou tsunami e deixou leito marinho cheio de detritos

Há quase 40 vulcões no mundo capazes de fazer o que fez o Anak Krakatau, no centro da imagem

Há quase 40 vulcões no mundo capazes de fazer o que fez o Anak Krakatau, no centro da imagem


BBC NEWS BRASIL

Cientistas conseguiram fotografar, pela primeira vez, os destroços do vulcão que causou um tsunami devastador na Indonésia há um ano e que estão no fundo do mar.

A equipe de pesquisadores usou sonares para registrar as grandes rochas que se desprenderam de um dos lados do Anak Krakatau (“filho do Krakatoa”, em tradução livre).

Algumas rochas chegam a ter 90 metros de altura — a título de comparação, a estátua do Cristo Redentor mais o pedestal que a suporta têm 38 metros de altura e o vulcão tinha mais de 300 metros antes da erupção.

O impacto dessas grandes pedras no mar deu origem a ondas gigantes que varreram as costas de Java e Sumatra em 22 de dezembro de 2018.

Quase 400 pessoas morreram naquela noite, e milhares se machucaram ou desapareceram.

Desde então, os cientistas tentam reconstituir o que aconteceu. Mas até agora as análises eram feitas a partir do que era possível ser visto acima do nível do mar.

O professor Dave Tappin, ligado ao centro britânico de pesquisa geológica, e seus colegas, decidiram que precisavam estudar toda aquela massa que falta ao vulcão e agora está submersa. Caso contrário, nunca poderiam ter a noção exata do que aconteceu ao Anak Krakatau.

Para isso eles levaram ao local um equipamento chamado ecobatímetro multifeixe, pelo qual é possível obter as profundidades de toda uma área.

“Os modelos anteriores do colapso eram baseados em imagens de satélite onde só era possível ver algumas partes do vulcão”, explicou à BBC.

“Nossa batimetria mapeou pontos com 200 metros de profundidade, e é possível ver blocos triangulares que pertenciam ao lado destruído do Anak Krakatau.”

Os destroços estão em uma área de quase 2 mil metros em torno do vulcão. Um estudo sísmico também realizado pela equipe mostra como esse material aparece sobre depósitos mais antigos.

A imagem subaquática permitiu à equipe de Tappin revisar sua estimativa do volume de rocha envolvido. E é menor do que se pensava anteriormente.

Esse volume menor representa um desafio para a modelagem computacional do tsunami.

 

Vulcão Anak Krakatau no dia seguinte à erupção que levou ao tsunami, em 23 de dezembro de 2018

Vulcão Anak Krakatau no dia seguinte à erupção que levou ao tsunami, em 23 de dezembro de 2018


Reuters

As simulações originais de como as ondas surgidas com o colapso das paredes do vulcão se moviam através do Estreito de Sunda já haviam se mostrado uma boa combinação do que havia sido observado nos medidores de maré e do que se sabia da extensão dos danos nas costas próximas.

Agora, os modelos precisam ser recalculados com dados menores.

As simulações ainda funcionam, no entanto — e por boas razões. A equipe de Tappin também descobriu que o o ângulo de inclinação ao longo do qual a massa rochosa deslizava no vulcão era menor do que se supunha.

Embora se pensasse que o lado colapsado abriu abruptamente na bacia criada quando o antigo vulcão explodiu em 1883, agora é óbvio que a inclinação estava muito mais perto da superfície.

“O deslizamento mais raso ocorre quase como um salto de esqui, mantendo o material colapsado mais próximo da superfície e tornando-o mais tsunamigênico do que uma falha mais acentuada, o que levaria o sedimento mais ao fundo, muito mais rapidamente”, explicou Stephan Grilli, especialista em tsunami da Universidade de Rhode Island.

Os achados de Tappin e Grilli e outros pesquisadores foram apresentados pela primeira vez à comunidade científica na reunião anual de outono da American Geophysical Union.

No evento, o professor Hermann Fritz, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, também divulgou achados a partir de estudos no solo sobre os tamanhos das ondas e os danos causados pelo tsunami que se seguiu à erupção do Anak Krakatau

Nas ilhas próximas ao vulcão, árvores até 80m acima da superfície do mar foram arrancadas pelas raízes.

Grande parte da energia das ondas se afastou do vulcão na mesma direção do colapso, levando à formação de ondas de 10 metros de altura que se deslocaram na direção sudoeste. Uma área do Parque Nacional Ujung Kulon, na ilha Panaitan, a 50 km de Anak Krakatau, foi completamente destruída.

“Os moradores tiveram muita sorte que o colapso foi na direção sudoeste, na direção em que poucas pessoas viviam”, disse Fritz.

 


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“Se a direção do colapso tivesse sido diferente, o resultado também poderia ter sido muito diferente em termos de altura do tsunami nas áreas povoadas”.

As lições obtidas dos estudos em torno do Anak Krakatau estão sendo usadas para avaliar os perigos em outros vulcões. Existem cerca de 40 outros locais em todo o mundo onde o colapso do flanco na água ao redor é considerado um perigo.