Ambientalista que criticou Salles por frase sobre ‘passar a boiada’ é notificado a prestar esclarecimentos a pedido da AGU; ONGs reagem

Mais de cem organizações e representantes da sociedade civil assinam nota que critica o uso da AGU por Salles e classifica ação como “tentativa de intimidação”. Salles sugere usar pandemia para fazer mudanças na área ambiental: ‘Ir passando a boiada’
Um grupo de mais de cem entidades e pesquisadores publicou nota nesta quinta-feira (15) alertando para uma “tentativa de intimidação” do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini. Em maio, o ambientalista criticou na imprensa a frase de Salles sobre o governo aproveitar a pandemia para “passar a boiada” (veja no vídeo acima).
De acordo com documentos obtidos pelo G1, Ricardo Salles buscou a Justiça Federal, amparado pelos advogados da Advocacia Geral da União (AGU), para pedir que Astrini fosse notificado a prestar explicações sobre uma entrevista que deu ao jornal “O Globo” em 25 de maio.
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Na reportagem citada, Astrini criticou a fala de Salles durante a reunião ministerial ocorrida em 22 de abril, na qual o ministro sugeriu que o governo aproveitasse as atenções da imprensa voltadas para a epidemia de coronavírus para “passar a boiada” e alterar a regulação ambiental.
“A gente viu um ministro de estado numa conversas de comparsas convocando para aproveitar o momento da pandemia, em que todo mundo está preocupado com a vida, para fazer uma força-tarefa de destruição do meio ambiente”, disse Astrini na entrevista ao jornal “O Globo” em 25 de maio.
Astrini também fez uma crítica à AGU na reportagem em questão.
“Ele [Salles] sabia que, para evitar problemas jurídicos, ele precisou encomendar pareceres jurídicos junto à AGU. É um absurdo por si só”, afirmou Astrini a O Globo em 25 de maio.
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Segundo a intimação da AGU, o pedido de explicações “é cabível em qualquer das modalidades de crimes contra honra” e que “soam levianas as palavras do senhor Márcio Astrini, pois além de atacar à pessoa do Ministro de Estado do Meio Ambiente também atingem a instituição da Advocacia-Geral da União, considerando afirmar a ocorrência de ‘pareceres encomendados'”
Ao G1, Astrini contou que recebeu a notificação há uma semana, mas que preferiu não se pronunciar até protocolar a resposta.
“O governo me notificou judicialmente para ‘prestar explicações’ por ter criticado o ministro do meio ambiente sobre a fala dele de passar boi e boiada. Isso tem nome: tentativa de intimidação”, se manifestou Astrini mais cedo nas redes sociais.
A nota em defesa do ambientalista publicada nesta quinta afirmou que “são as organizações e seus representantes, como Astrini, que ajudam a proteger o patrimônio ambiental brasileiro, seja denunciando atividades criminosas como desmatamentos ilegais e invasões de terras públicas, seja expondo o desmantelamento doloso de políticas públicas ambientais operado pelo Governo Bolsonaro.”
A documento ainda criticou o uso da AGU por Salles para intimar o ambientalista e classificou a postura do ministro como uma tentativa de intimidação.
“Nós queremos viver numa sociedade onde todas as pessoas sejam livres e respeitadas. Queremos um meio ambiente saudável, vida digna para as pessoas que vivem na floresta, no campo e na cidade. As organizações que assinam repudiam a tentativa de intimidação ao ambientalista Marcio Astrini pelo ministro” – nota contra intimação feita por Salles.
Representantes de 88 entidades da sociedade civil, incluindo ONGs como Greenpeace, institutos de pesquisa, a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), além de 65 pesquisadores, professores e advogados da sociedade civil. Entre eles, João Alfredo, presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB, assinaram o documento.
‘Passar a boiada’
Em 22 de abril, Ricardo, Salles na presença de outros ministros e do presidente Jair Bolsonaro, sugeriu que o governo deveria aproveitar o momento em que o foco da sociedade e da mídia está voltada para o novo coronavírus para mudar regras que podem ser questionadas na Justiça.
PONTO A PONTO: o que foi dito na reunião ministerial
“Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.” – Ricardo Salles
O vídeo da reunião em que Salles faz a afirmação acima integra o inquérito que investiga suposta interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal, após denúncias do ex-ministro da Justiça Sergio Moro.