Amazônia registra quase 5 mil focos de queimadas em julho mesmo com decreto que proíbe o uso do fogo; veja imagens


Greenpeace sobrevoou focos de queimadas registrados pelo Inpe e flagrou fogo em floresta pública sem destinação e parque nacional. Em uma das fotos, é possível ver o gado sendo colocado em área recém-queimada. Coluna de fogo avança sobre floresta degradada em área de floresta pública não destinada em Porto Velho, Rondônia. 29 de julho
Christian Braga/Greenpeace
A Amazônia registrou 4.977 focos de queimadas em julho, segundo dados preliminares do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe). Isso apesar de o uso do fogo no bioma estar proibido desde 29 de junho, quando o governo federal publicou um decreto suspendendo a prática por 120 dias no território nacional.
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Para mostrar onde o fogo está destruindo a Amazônia, a a organização Greenpeace sobrevoou a região na última semana de julho e fotografou áreas afetadas. Entre elas, há registro de fumaça e fogo em florestas públicas e parques nacionais.
Em uma imagem feita no dia 29 de julho em Porto Velho, Rondônia, é possível ver que a área desmatada e recém queimada já recebe gado. (veja abaixo)
Imagem de 29 de julho mostra que área desmatada e queimada já recebe gado em Porto Velho, Rondônia.
Christian Braga/Greenpeace
Outra imagem, também de 29 de julho, flagra uma coluna de fogo avançando sobre, segundo o Greenpeace, uma área de floresta pública não destinada em Porto Velho, Rondônia.
Greenpeace registra cortina de fumaça em floresta pública não destinada em Rondônia, em 29 de julho, mesmo com moratória do fogo.
Christian Braga/Greenpeace
O município de Porto Velho, segundo o Inpe, foi o que mais registrou focos de queimadas em julho em toda a Amazônia: foram 340 focos. Logo em seguida aparecem Lábrea (AM), com 251 focos; Apuí (AM), com 249 focos; e Altamira (PA), com 228 focos.
Dados do Inpe também apontam que mais da metade do fogo registrado em julho na Amazônia está concentrado em apenas dois estados, o Pará (1.372 focos) e o Amazonas (1.173 focos)
As fotos registradas pelo Greenpeace também mostram uma densa cortina de fumaça sobre uma área degradada no Parque Nacional Mapinguari, em Lábrea, no Amazonas, na última semana de julho. (abaixo)
Queimada sobre área degradada no Parque Nacional Mapinguari, em Lábrea, Amazonas. 29 de julho
Christian Braga/Greenpeace
A organização lembra que, no mesmo dia em que foi publicado o decreto nº 10.735 proibindo o uso do fogo no período, o governo federal autorizou novamente o uso das tropas militares para combater as queimadas na Amazônia.
Segundo a organização, os quase 5 mil focos registrados pelo Inpe no mês passado são ilegais e mostra que as ações do governo federal são ineficientes para proteger o bioma.
“Como principal estratégia do governo federal para conter a destruição, a GLO [Garantia de Lei e da Ordem] é comprovadamente ineficiente. A Amazônia segue sob intensa ameaça e a ilegalidade e destruição continuam devastando grandes áreas, conforme mostram as imagens registradas pelo Greenpeace em sobrevoo”, disse o Greenpeace.
Greenpeace registra queimada sobre vegetação degradada em Apuí, Amazonas, em 29 de julho.
Christian Braga/Greenpeace
De fato, o governo federal publicou o mesmo decreto no ano passado suspendendo o uso do fogo. No entanto, os focos de incêndio em 2020 foram 15% maiores do que os registrados em 2019.
Entre as unidades de conservação, as três que mais queimaram no mês estão no estado do Pará: Reserva extrativista Chico Mendes (61 focos); Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu (46 focos) e Flona de Altamira (39 focos).
Já em relação às terras indígenas (TI), as três com maior foco de queimadas estão no Mato Grosso: TI Parque do Xingu (62 focos); TI Zoró (23 focos) e TI Aripuanã (20 focos).
O G1 pediu que o Ministério do Meio Ambiente comentasse o registro do fogo na Amazônia durante a proibição da prática e, até a última atualização desta reportagem, não havia obtido resposta
Área recém desmatada e queimada em Porto Velho, Rondônia, no dia 29 de julho.
Christian Braga/Greenpeace
O que esperar da temporada do fogo
Apesar dos recordes de queimadas registrados nos últimos meses – junho registrou o maior número de focos de calor em 14 anos -, a temporada do fogo ainda não começou na Amazônia. Ela ocorre durante os meses mais secos na região, entre agosto e novembro. Por isso, segundo Cristiane Mazzetti, gestora ambiental do Greenpeace, o pior ainda está por vir.
“Muitas áreas foram derrubadas e degradadas recentemente e devem ser queimadas ilegalmente nos próximos meses, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo. O pior está por vir, além dos próximos meses serem mais secos na Amazônia, os órgãos ambientais seguem enfraquecidos”, explica Mazzetti.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Woodwell Climate Research Center publicado em 30 de julho mostrou que uma área de 5 mil quilômetros quadrados desmatados na Amazônia, correspondente a 500 mil campos de futebol ou quatro vezes a cidade de São Paulo, está sob risco de queimada na temporada do fogo de 2021.
Segundo os pesquisadores, as áreas desmatadas e ainda não queimadas desde 2019 e uma seca intensa provocada pelo fenômeno La Niña indicam atenção especial para a ocorrência do fogo na Amazônia, especialmente no sul da região.
“Há quase 5 mil quilômetros quadrados de área, quase quatro vezes o município de São Paulo, com vegetação derrubada e seca só esperando alguém chegar com o fogo. A queimada, nesse caso, é a última etapa do desmatamento, a forma mais barata e rápida de limpar o terreno para seu uso posterior”, diz o levantamento.
Mais de um terço dessa área sob risco está concentrado em apenas dez municípios de quatro estados: Amazonas, Mato Grosso, Pará e Rondônia.
Por ser uma floresta densa e úmida, o fogo na Amazônia não é natural. Ele é provocado pelo desmatamento e piorado pelas mudanças climáticas, que tem intensificado os períodos de seca no bioma.
“Quando as florestas são cortadas, as árvores e os galhos mortos são empilhados para secar, completando o ciclo do desmatamento. Esse fogo, de grande intensidade, pode escapar para a floresta e, se combinado a condições secas, causar grandes danos. Tais condições têm se tornado mais frequentes como resultado da combinação dos efeitos locais do desmatamento com as mudanças climáticas globais”, explica o documento.
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Além da relação direta com o desmatamento, a queima de florestas e outras vegetações nativas no Brasil é a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa.
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