Amazônia Legal teve 964 km² sob alerta de desmatamento em setembro, mostram dados do Inpe


Maior parte da área desmatada da floresta em setembro foi no Pará. Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro e engloba a área de oito estados. Foto aérea tirada no dia 7 de agosto mostra área deflorestada da Amazônia em Sinop (MT).
Florian Plaucheur/ AFP
A Amazônia Legal teve uma área de 964 km² sob alerta de desmatamento em setembro, a segunda maior em cinco anos, mostram dados atualizados nesta sexta-feira (9) pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Já o Cerrado teve 458 km² de área sob alerta.
Os alertas foram feitos pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que produz sinais diários de alteração na cobertura florestal para áreas maiores que 3 hectares (0,03 km²), tanto para áreas totalmente desmatadas como para aquelas em processo de degradação florestal (exploração de madeira, mineração, queimadas e outras).
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O sistema aponta áreas com marcas de devastação que precisam ser fiscalizadas pelo Ibama, e não as taxas oficiais de desmatamento (veja detalhes mais abaixo nesta reportagem), que costumam ser maiores do que as registradas pelo Deter.
A Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro, e engloba a área de 8 estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) e parte do Maranhão. A maior parte da área desmatada da floresta em setembro foi no Pará (veja gráfico).
Os municípios que mais desmataram foram:
São Félix do Xingu (PA): 70,25 km²
Porto Velho: 68,75 km²
Altamira (PA): 53,12 km²
Lábrea (AM): 42,06 km²
Itaituba (PA): 28,38 km²
Novo Progresso (PA): 28,06 km²
Colzina (MT): 25,23 km²
Portel (PA): 23,05 km²
Rurópolis (PA): 21,45 km²
Placas (PA): 19,97 km²
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Deter x Prodes
Vista aérea de área queimada na Amazônia, perto de Apuí, no Amazonas, no dia 11 de agosto.
Ueslei Marcelino/Reuters
Os alertas do Deter não representam, entretanto, a taxa oficial de desmatamento considerada pelo governo – essa é medida por outro sistema do Inpe, o Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), que trabalha com imagens de melhor resolução espacial.
A taxa oficial é divulgada uma vez por ano e também considera os números de agosto de um ano a julho do ano seguinte. Os dados de 2019-2020 ainda não foram divulgados, mas, no ano passado, a taxa oficial foi 42% maior do que apontavam os satélites do Deter. Os números do Prodes costumam ser, historicamente, maiores do que os do Deter.
Queimadas
Foto mostra tamanduá morto depois de incêndio na Amazônia perto de Mirante do Norte, Rondônia, no dia 20 de agosto.
Ueslei Marcelino/Reuters
O desmatamento e as queimadas estão relacionados. O fogo é parte da estratégia de “limpeza” do solo que foi desmatado para posteriormente ser usado na pecuária ou no plantio. É o chamado “ciclo de desmatamento da Amazônia”.
O número de focos de incêndio registrados na Amazônia de janeiro a setembro deste ano é o maior desde 2010, mostram dados do Inpe. Naquele ano, foram 102.409 pontos de fogo na floresta de 1º de janeiro a 30 de setembro. Em 2020, no mesmo período, foram 76.030 (veja gráfico).
Setembro é, historicamente, o mês com mais focos de incêndio na floresta. Neste ano, houve 32.017 focos do dia 1º a 30 de setembro – uma alta de 61% em relação a setembro de 2019. O número ficou um pouco abaixo da média histórica para o mês, que é de 32.812 focos. A maior alta foi em 2007, com 73.141 registros mensais.
O mês passado também foi o pior na história em número de incêndios no Pantanal: foram 6.048 registros. O recorde mensal anterior era de 5.993, de agosto de 2005.
Embates com o governo
Os dados do Inpe têm causado embates com membros do governo federal.
No dia 30 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro declarou, em um discurso gravado e apresentado na cúpula sobre biodiversidade da Organização das Nações Unidas (ONU), que organizações, em parceria com “algumas ONGs”, comandam “crimes ambientais” no Brasil e também no exterior. O presidente não apresentou provas para as afirmações.
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Quatro dias antes, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) publicou informações incorretas sobre as queimadas registradas no país em 2020. A mensagem da secretaria dizia que a área queimada em todo o território nacional era a menor dos últimos 18 anos.
A afirmação, entretanto, desconsiderava um dado que aparecia na imagem postada pela própria Secom junto com a mensagem: os números de 2020 se referiam aos oito primeiros meses do ano – janeiro a agosto. Já os dados dos outros anos consideravam os doze meses.
Isso é importante porque a alta no número de focos de incêndio ocorre, justamente, no segundo semestre do ano – mais especificamente nos meses de agosto, setembro e outubro, com o pico em setembro.
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