Alzira E revê em documentário o curso contínuo do rio que banha vida e obra da artista


A cineasta Marina Thomé perfila a cantora sul mato-grossense com sensibilidade em ‘Aquilo que nunca perdi’, filme que estreia em 18 de março em sessão online de festival de cinema de Buenos Aires. Resenha de documentário musical
Título: Aquilo que eu nunca perdi – com Alzira E
Direção: Marina Thomé
Roteiro: Dellani Lima
Produção: Marcia Mansur (Estúdio Crua)
Cotação: * * * 1/2
♪ Filme com estreia programada para as 17h de 18 de março em sessão online gratuita 22º BAFICI – Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente
Alzira E revela ter sofrido assédio masculino nos anos 1980 na cidade de Aquidauana
Marina Thomé / Divulgação
♪ “…Eu não consigo nem ficar nostálgica… Ele está tão junto comigo e eu levo tanto essas águas comigo…”, reflete Alzira E. A artista discorre sobre a relação visceral com o Rio Paraguai sentada em canoa que desliza sobre as águas desse rio cujo curso parte do Brasil, precisamente de Mato Grosso, para percorrer a Bolívia e atravessar o Paraguai.
A reflexão de Alzira Maria Miranda Espíndola é feita nos minutos finais do ainda inédito documentário Aquilo que eu nunca perdi e é decisiva para entender a vida, a obra e a alma desta cantora, compositora e instrumentista sul mato-grossense, nascida em setembro de 1957 na cidade de Campo Grande (MS).
Ao longo da hora e meia do filme produzido por Marcia Mansur, a diretora Marina Thomé motiva Alzira a rever o curso das águas que a trouxeram para São Paulo (SP), cidade onde a artista reside desde 1984 e onde construiu identidade artística que a fez adotar o nome de Alzira E para demarcar o próprio território musical.
Desde então, Alzira concilia o trabalho solo com a música pantaneira feita com a família Espíndola, na qual a irmã Tetê sobressaiu em escala nacional com a explosão da música Escrito nas estrelas (Arnaldo Black e Carlos Rennó, 1985) no Festival dos festivais (TV Globo, 1985).
Ao longo do filme, Alzira E revolve as memórias dessas águas sem exalar nostalgia em ação coerente com a fala final sobre o Rio Paraguai. Talvez porque, como caracteriza o parceiro Tiganá Santana, Alzira E seja mesmo um “rio contínuo” que se renova à medida em que passa por paisagens distintas.
Para acompanhar o curso desse rio em Aquilo que nunca perdi, documentário contemplado pelo edital Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e com estreia programada para 18 de março em sessão online da 22ª edição do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente, o espectador precisa acertar o relógio interno no ritmo manso do roteiro de Dellani Lima.
É nesse tempo particular que, sem pressa de jogar informação na tela, a diretora Marina Thomé molda o perfil de Alzira E através de depoimentos, imagens de shows (antigos e recentes), takes de estúdio e vídeos caseiros que flagram a artista na intimidade familiar.
Aos poucos, aliás, vai ficando claro como Alzira sempre esteve ligada de forma vital a um clã, seja a biológica família musical – onde parece reinar real irmandade entre os manos Celito Espíndola, Geraldo Espíndola, Jerry Espíndola e Tetê Espíndola – seja a família musical formada na vida paulistana e personificada por parceiros como Alice Ruiz, Itamar Assumpção (1949 – 2003), Lucina e Tiganá Santana, com quem Alzira admite ter vivido paixão musical à primeira ouvida.
Os irmãos Espíndola em estúdio nos anos 1970
Penna Prearo / Divulgação Itaú Cultural
O filme Aquilo que nunca perdi reforça a imagem gregária e caseira da artista em takes que, por exemplo, flagram a cantora na cozinha, cozinhando bananas. Mas igualmente reveladora é a cena que exibe os olhos da cantora marejando no estúdio durante a gravação do álbum Corte (2017), afiado disco de lâmina roqueira que juntou Alzira E com músicos do grupo paulistano Bixiga 70.
Para quem gosta de ver descortinados os bastidores dos estúdios, aliás, o filme mostra Alzira e Tetê Espíndola com Ney Matogrosso na gravação de Ciriema (Siriema do Mato Grosso) (Nhô Pai e Mario Zan, 19847), polca interpretada pelo cantor no último disco pantaneiro das irmãs, Recuerdos (2019).
Entre as exposições de afinidades musicais da artista com nomes como o conterrâneo sul mato-grossense Almir Sater (de quem Alzira E revela ter sido amiga de infância), a diretora Marina Thomé documenta questões pessoais que agitaram o curso das águas de Alzira.
É comovente o desabafo da cantora, já na reta final do filme, sobre a impotência da mulher nos anos 1980, sobretudo em cidades do interior, diante do assédio masculino. Alzira revela ter sofrido abuso na cidade de Aquidauana (MS) em 1984, ano em que decidiu se fixar definitivamente em São Paulo (SP), cidade para onde viera pela primeira vez em 1978 gravar o LP Tetê e o Lírio Selvagem, primeiro e único álbum do grupo homônimo formado pelos irmãos Espíndola em 1976 – então com o nome inicial de Luz Azul – e desfeito em 1979.
Em São Paulo, Alzira Espíndola virou Alzira E e fez o próprio nome na cena underground da cidade sem jamais ter perdido o contato com as águas do rio que ainda banha a vida e a música dessa artista perfilada com sensibilidade no documentário de Marina Thomé.