Alessia Cara diz que ‘só ouviu bossa nova’ no último ano e que novo álbum tem influência brasileira


Após levar Grammy com pop adolescente angustiado e cantar sobre ‘dores do crescimento’, canadense adianta ao G1 que 3º disco tem músicas com violões inspirados em João Gilberto e Djavan. Alessia Cara posta vídeos em português e diz que disco terá influência de bossa nova
Alessia Cara perdeu o medo de Metallica, mas ama mesmo é bossa nova. A cantora canadense de 25 anos, que estourou com a angústia pop adolescente de “Here”, conta ao G1 como expandiu horizontes para o seu terceiro álbum: “A vida é muito curta para não tentar de tudo”, ela diz. Veja vídeo acima.
A vencedora do Grammy de artista revelação em 2018 passou por maus bocados na quarentena. Sua ansiedade e insônia são registradas no novo single “Sweet dreams”, um pop com toques de trap. Outra música já divulgada é “Shapeshifter”, um jazz-pop com uma faceta mais adulta de Alessia.
Mas é outro par de músicas do próximo disco, ainda sem data e título certos , que interessa ao Brasil. Alessia ama bossa nova: “É só o que eu escuto no último ano”, diz. Ela já postou vídeos cantando, em português, músicas de João Gilberto, Toquinho e Djavan. Influências que estarão no álbum, ela adianta.
Longe do banquinho e violão, porém, Alessia participa de um álbum de tributo ao Metallica, previsto para sair no dia 10 de setembro. Ela canta “Enter Sandman”. “Quando eu era muito pequena eu tinha medo deles, para ser sincera. Hoje eu gosto de verdade”, diz a canadense.
Quem apresentou Metallica para ela foi o avô dela. Mas Alessia também se aventura em músicas para faixas de idade mais baixas. Ela lança nesta sexta-feira (6) a música “Use in trying”, da trilha do novo filme da animação “Patrulha Canina”. Alessia não tem limites musical e etário. Leia a conversa abaixo:
G1 – Como você descobriu essas músicas brasileira e por que gostou delas?
Alessia Cara – Provavelmente foi “Garota de Ipanema”, na versão de Astrud [Gilberto], quando eu era muito nova. E eu amei. Nem sabia o nome do ritmo até que fiquei mais velha. Aí descobri que era bossa nova. Eu ia no Google, buscava “bossa nova” o tempo inteiro, fiquei obcecada. É o som que ouço para relaxar, só escuto isso no verão. Me leva para um estado que me faz sentir tão bem. Eu amo muito.
G1 – É legal te ver cantando em português. Você sabe o significado ou só repete os sons?
Alessia Cara – No começo eu só repetia, mas também olho as traduções, para ver o que significa. Sempre acho as letras lindas também. As músicas de amor são tão simples, mas tão bonitas. Às vezes eu só guardo as palavras, mas depois eu vou olhar o que são.
G1 – Você parece gostar de músicas com a palavra saudade. Sabe o que saudade significa?
Alessia Cara – Sim! Eu acho que significa nostalgia, ou tristeza?
G1 – Sim, é sentir falta de alguém ou uma coisa que se foi.
Alessia Cara – Sim, eu amo essa palavra. É verdade, minhas músicas preferidas têm essa palavra lá.
G1 – Há alguma música ou arranjo de seu próximo disco com influência de bossa nova?
Alessia Cara – Sim. Tem um par de músicas com influência de bossa. Porque, de novo, é só o que eu escuto nesse último ano. Então eu definitivamente incluí instrumentos e bases que você vai ouvir no álbum. Violões, acordes e o ritmo da bossa nova.
G1 – E você ouviu “Billie bossa nova”, do novo disco da Billie Eilish?
Alessia Cara – Ouvi. Achei incrível. A voz dela é tão linda. Foi uma das primeiras músicas que eu procurei, eu tinha que ouvir. Ela é ótima, devia fazer um disco inteiro de bossa nova de verdade. Seria demais.
G1 – Você também.
Alessia Cara – Valeu, eu adoraria.
Alessia Cara
Shervin Lainez / Divulgação
G1 – Agora sobre o single “Sweet dreams”. Eu sei que você sempre teve problemas pra dormir. Eles pioraram na pandemia? A música foi escrita numa dessas noites?
Alessia Cara – Sim, minha insônia durante a pandemia ficou muito pior. Porque eu estava muito ansiosa, com muito medo pelo mundo e por mim. Eu estava passando por muitos problemas pessoais com minha saúde mental. E tudo explodiu. Eu não conseguia dormir. Eu ficava acordada por horas, por dias. Eu não conseguia ir para a cama. Essa música surgiu da minha frustração por isso.
G1 – Ouvir bossa nova nesse período parece uma boa decisão.
Alessia Cara – (Risos). Exatamente. Relaxa, me faz sentir bem.
G1 – Na outra música nova, “Shapeshifter”, parece que você canta menos sobre as dores de crescer e mais sobre a dor de já ser adulto. É isso? A dor nunca passa?
Alessia Cara – (Risos) Exatamente. Acho que a dor nunca acaba. Acho que você não está vivendo se não está sentindo dor. É um ótimo jeito de descrever a música. O disco todo e “Shapeshifter” são sobre as dores de ser adulto. Sentimentos e corações partidos de adultos. E o coração partido vem não só de relacionamentos. Você pode cortar seu próprio coração, a vida pode cortá-lo. É sobre isso que o disco fala.
G1 – Você falou que lançou estes dois singles para mostrar a dualidade do álbum. O que podemos esperar destes dois lados?
Alessia Cara – Esse disco é um antes/depois. Mostra como eu estava no começo desse ano e como estou agora, como achei um pouco de alegria na minha vida. Há algumas músicas mais tristes e pesadas sobre a primeira metade desse ano e músicas mais livres e esperançosas da segunda metade. São dois lados não só do ano, mas de mim. E também, no aspecto musical, há músicas mais lentas e outras mais rápidas.
G1 – Dá para esperar o disco para esse ano?
Alessia Cara – Definitivamente esse ano. Não tenho uma data exata, mas vai ser em breve.
G1 – Fiquei surpreso de ver que você ia cantar “Enter sandman” no disco de covers do Metallica. Eles têm algumas baladas, mais suaves… Por que você escolheu essa?
Alessia Cara – (Risos.) Porque “Sweet dreams” tem uma referência a Sandman [personagem que também inspira a música do Metallica]. É uma música sobre sono, então achei que seria legal. Mas também porque tem uma banda feminina de metal do México, The Warning, que me chamou para fazer o cover. Elas foram descobertas por causa da versão de “Enter Sandman”. Achei legal trabalhar com uma banda de metal só de mulheres, e achei que seria um desafio legal tentar achar um jeito de fazer essa música, porque é muito diferente de mim. Espero que tenha feito do jeito certo.
G1 – Você ouvia Metallica em alguma fase da sua vida?
Alessia Cara – Um monte de pessoas na minha vida ouvem heavy metal. . Vários primos e tios meus tinham banda de metal quando eu estava crescendo. Então eles sempre tocavam na garagem, me ensinavam. Fio meu avô que me ensinou sobre Metallica e heavy metal. Meu pai ouvia muito rock. Então isso estava sempre em volta de mim.
Mas quando eu era muito pequena eu tinha medo deles, para ser sincera. Eu via os clipes, até o de “Enter Sandman”, e era tão assustador. E eu ficava: “aaah, heavy metal dá medo”. Mas quando eu envelheci, comecei a gostar mais de rock. E hoje eu consigo curtir de um jeito diferente, porque não tenho mais medo (risos). Hoje eu gosto de verdade.
Alessia Cara
Shervin Lainez / Divulgação
G1 – Você está lançando “Use in trying”, na trilha do novo filme da “Patrulha canina”. Você está cada vez mais adulta nos seus temas. Como foi fazer a volta e cantar em um filme para crianças agora?
Alessia Cara – Eles me chamaram para escrever uma música específica para uma cena. Eu e o Jon Levine, meu produtor, tentamos escrever e construir a música em volta dessa cena. Fiquei pensando em quando eu via filmes da Disney quando criança. Tantas canções eram tão significativas. Elas eram muito mais pesadas do que a gente achava na época.
Então eu queria fazer isso pelas crianças que assistissem ao filme e também para seus pais. A música é sobre como você nem sempre vai ganhar na vida, vai perder e falhar muitas vezes. Mas ainda faz sentido tentar. É tentando e falhando que você descobre partes de você e aprende. É uma lição para todo mundo.
G1 – Você toca bossa nova, Metallica, tem um novo single e trap e outro de jazz, temas adultos e filme de criança… Em “Shapeshifter” você reclama de um ex que vive mudando de personalidade. Você acha que, artisticamente, você é assim também? E que é bom não se encaixar?
Alessia Cara – Sim. Eu faço de tudo e sempre ouvi de tudo: pop, bossa, folk, jazz, rap. Então, quando vou fazer música, tento de tudo. A beleza de fazer música hoje é que os gêneros são muito amplos, uma grande mistura. A vida é muito curta para não tentar de tudo.
Alessia Cara com o Grammy de Artista Revelação em 2018
REUTERS/Carlo Allegri