Alceu Valença segue o itinerário carioca do desejo na rota que leva o álbum ‘Saudade’ do Rio a Olinda


Disco é o segundo de voz e violão da trilogia gravada pelo artista com canções novas e antigas. Capa do álbum ‘Saudade’, de Alceu Valença
Leo Aversa
Resenha de álbum
Título: Saudade
Artista: Alceu Valença
Edição: Deck
Cotação: * * * *
♪ Segundo título da trilogia de álbuns gravados somente com a voz e o violão de Alceu Valença, formato até então inédito na discografia do elétrico artista, Saudade segue roteiro próprio – assim como o antecessor Sem pensar no amanhã (2021), lançado em março – ao encadear duas músicas novas com nove composições apresentadas pelo cantador ao longo da carreira iniciada no alvorecer da década de 1970.
No caso do álbum Saudade, Alceu segue o itinerário carioca do desejo que move este disco lançado nesta sexta-feira, 23 de julho, e aberto por samba inédito Era verão (2021), flash memorialista da chegada do pernambucano ao Rio de Janeiro (RJ), “cidade no cio”, focada com o “olhar estrangeiro” do iniciante migrante, como enfatiza em versos do samba.
Na costura de Saudade, é como se a “morena de Copacabana” citada no samba Era verão fosse a “linda morena” de Tropicana (Alceu Valença e Vicente Barreto, 1982) – ora abordada com sabor mais doce pelo artista de 75 anos completados em 1º de julho – e a “moça bonita” de Como dois animais (1982), música de sensualidade entranhada em todos os poros.
A exemplo do disco anterior Sem pensar no amanhã, a costura do repertório do álbum Saudade faz sentido e é valorizada pela excelente qualidade técnica do som captado por Matheus Gomes no estúdio Tambor, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Alceu Valença apresenta o inédito samba ‘Era verão’ no álbum ‘Saudade’
Leo Aversa / Divulgação
Na embolada do tempo de Alceu Valença, Ai de ti, Copacabana (2005) – canção inspirada pelo universo do cronista Rubem Braga (1913 – 1990) – segue fluente pela orla carioca que também banha o caminhar de Andar, andar (1990) porque, na metade inicial do álbum, tudo vira desejo de encontrar a musa amada na cidade que vive no cio.
Tesoura do desejo (1992) reforça a costura, cortando a onda ao avisar que o sonho pode virar pesadelo. Solidão (1984) anuncia o descompasso do coração no passo desse disco que caminha para expiar a saudade dos amigos confinados na inédita e melancólica música-título, previamente apresentada em single editado em 9 de julho.
Na sequência do álbum gravado com produção musical feita por Rafael Ramos com o próprio Alceu Valença, o obscuro Samba do tempo (1985) dilata a rota filosófica do disco com suavidade evocativa do clima da bossa carioca. Bossa também entranhada nos atuais contornos de Ladeiras (1994), reminiscências de desejos vividos pelo artista na cidade-mulher natal, celebrada em Olinda (1985), destino final do álbum Saudade.
É que, no itinerário e no universo particular de Alceu Valença, as andanças pela cidade do Rio de Janeiro (RJ) sempre desembocam nas apaixonadas memórias de Olinda (PE).