Álbum lançado por Dona Ivone Lara em 1981, ‘Sorriso negro’ é analisado sob prisma político na série ‘O livro do disco’


♪ A cidadã carioca Yvonne da Silva Lara (13 de abril de 1922 – 16 de abril de 2018) nunca exerceu militância política explícita ao longo dos 96 anos de vida vivida com delicadeza valente. O ativismo da artista aconteceu da forma como Yvonne driblou o machismo historicamente imperante na música brasileira e, abrindo alas para as mulheres em quadras e terreiros, se tornou Dona Ivone Lara, sambista de alta nobreza.
A força política de Ivone Lara reside também na obra da artista. É sob esse prisma que a jornalista e pesquisadora Mila Burns analisa o terceiro álbum de Ivone Lara, Sorriso negro, em ensaio editado no Brasil neste ano de 2021 dentro da série O livro do disco, da Editora Cobogó.
Inédito no Brasil, o texto de Burns foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 2019, em livro da série norte-americana 33 1/3, dedicada à análise de álbuns emblemáticos.
Gravado com produção musical de Sérgio Cabral e lançado em 1981, há 40 anos, o álbum Sorriso negro chegou ao mundo quando o Brasil já vinha sendo bafejado pelos ventos da abertura política que sopravam pelo país desde 1979. É quando, como observa Mila Burns, o movimento negro cresce no Brasil.
Para a autora, a gravação do então inédito samba que deu nome ao disco – Sorriso negro (1981), composição de autoria de Jorge Portela, Adilson de Barro e Jair de Carvalho – simboliza no disco de Ivone a expansão da voz do povo preto.
Mesmo sem ter a assinatura de Ivone Lara, artista que normalmente dava voz a músicas da própria fina lavra, o samba Sorriso negro se tornou um marco da obra da cantora a partir da gravação que juntou Ivone Lara com Jorge Ben Jor, artista que, cabe lembrar, tinha sido um dos pioneiros da bossa negra ao apresentar em 1963 um samba e um toque de violão “esquema novo”.
Capa de ‘O livro do disco – Dona Ivone Lara – Sorriso negro’, de Mila Burns
Reprodução
Ao dissecar o álbum Sorriso negro na série O livro do disco, Mila Burns associa o jongo que fecha o disco, Axé de Ianga (Pai maior) (Ivone Lara, 1981), às manifestações de orgulho negro impressas tanto no álbum quanto nos movimentos negros que vinham se organizando e crescendo pelo Brasil desde a segunda metade dos anos 1970.
Da mesma forma, a autora detecta a força feminina manifestada no samba que abre o disco, A sereia Guiomar (1981) – música feita por Ivone Lara com o compositor fluminense Delcio Carvalho (1939 – 2013), principal parceiro da sambista desde 1972 – e gravada pela autora com Maria Bethânia, cantora responsável pela massiva disseminação nacional da obra de Ivone Lara em 1978 com a gravação do samba Sonho meu (Ivone Lara e Delcio Carvalho) no álbum Álibi (1978).
No entende de Mila Burns, o álbum Sorriso negro resulta do efervescente clima político do Brasil em 1981. “O álbum foi influenciado pelos desafios enfrentados por mulheres e afrodescendentes no Brasil e, ao mesmo tempo, deu forma à luta por igualdade”, contextualiza Mila Burns em mais um bom título da série O livro do disco.