Álbum de Caetano Veloso em 1971 faz 50 anos como retrato ainda tocante da tristeza do artista no exílio em Londres


Cantor vai revisitar e contextualizar o repertório do disco em live programada para 7 de março. ♪ MEMÓRIA – Em 1971, a tristeza era senhora no quarto ocupado por Caetano Veloso na casa situada no número 16 da rua Redesdale, em Chelsea, bairro da região central de Londres, capital da Inglaterra.
Deprimido com o exílio europeu, amargado desde 1969, o artista baiano ganhou injeção de ânimo quando o produtor musical britânico Ralph Mace – então recém-saído da Philips, gravadora do qual Caetano era contratado no Brasil – bateu à casa da rua Redesdale com a proposta de gravação de álbum do artista e com o incentivo para que Caetano compusesse músicas em inglês para o disco.
Como Caetano narra no jorro de memória que gerou o livro autobiográfico Verdade tropical (1997), um produtor norte-americano residente em Londres, Lou Reizner (1934 – 1977), também demonstrou interesse de dar forma a um LP de Caetano e acabou se juntando a Ralph Mace na empreitada.
Desentendimento posterior motivou a saída de Reizner do projeto, pouco antes do fim das gravações feitas no Chappell’s Studios, em Londres, sem impedir que Reizner dividisse irmãmente com Mace os créditos da produção do álbum.
Lançado na Inglaterra pelo selo Famous / GW (de Ralph Mace) e editado no Brasil via Philips no mesmo ano de 1971, o álbum Caetano Veloso faz 50 anos em 2021 com retrato perene e ainda tocante do cinzento estado de espírito do artista no forçado exílio em Londres para escapar da perseguição pelo regime ditatorial que asfixiava o Brasil na época.
Nem o ânimo de Caetano em fazer o disco diluiu a tristeza do artista, mantida senhora nas gravações das sete músicas que compõem o repertório do LP. Esse repertório será revisitado e contextualizado por Caetano Veloso em live-show agendada para as 19h de 7 de março, dentro da programação online da 24º edição do Festival Cultura Inglesa.
A melancolia do álbum foi captada no semblante circunspecto de Caetano Veloso na foto de Johnny Clamp exposta na capa do LP, criada pela designer Linda Glover.
Ao longo das sete músicas, Caetano expôs a dor de estar longe do Brasil. Essa dor deu sentido agudo aos versos do tema baiano de domínio público Marinheiro só – “Eu não sou daqui / Eu não tenho amor / Eu sou da Bahia / De São Salvador” – que serviu de base para a faixa If you hold a stone (Caetano Veloso, 1971).
Composto majoritariamente em inglês, com alguns versos em português, o repertório do álbum Caetano Veloso incluiu músicas formatadas com ênfase no toque do violão do próprio Caetano, incentivado a assumir o instrumento pelos produtores do disco. Golpes desse violão foram os motores do arranjo de A little more blue (Caetano Veloso, 1971), composição em que o artista já externou a tristeza d’alma na abertura do disco.
Em síntese, o álbum Caetano Veloso foi lamento que exprimiu a saudade que o artista sentia do Brasil – saudade remoída ao longo do disco.
Nesse contexto, o sertão mencionado na letra da toada Asa branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947) podia ser entendido como metáfora que simbolizava o próprio Brasil. “Hoje longe, muitas léguas / Nessa triste solidão / Espero a chuva cair de novo / Pra mim vortar pro meu sertão”, vislumbrou o artista, emulando sotaque nordestino, no canto ruminado desse standard nacional que fechou o álbum em gravação de sete minutos e meio.
Entre a dor escancarada em A little more blue e a esperança descortinada na paisagem sertaneja de Asa branca, o artista exilado mapeou sentimentos contraditórios em London London (Caetano Veloso, 1970) ao caminhar solitário contra o vento, sem medo nem esperança, nas ruas inglesas.
Do repertório autoral gravado pelo artista no álbum Caetano Veloso, London London é a música que se tornou mais popular e atravessou gerações, tendo virado viral na regravação ao vivo feita pela banda RPM em 1986, no auge da idolatria do vocalista Paulo Ricardo.
Cabe também lembrar que London London tinha sido lançada no ano anterior por Gal Costa e foi descaradamente plagiada em 1971 pelo cantor e compositor italiano Jimmy Fontana (1934 – 2013). Fontana se apropriou da melodia (que conhecera através de Gal quando veio ao Brasil), criou refrão e, com letra de Franco Migliacci, formatou a canção Che sarà, apresentada com êxito no Festival de San Remo na edição daquele ano de 1971.
Da safra inédita do álbum Caetano Veloso, a canção Maria Bethânia (Caetano Veloso, 1971) – flash da ansiedade cotidiana exposta na súplica para que a irmã cantora lhe escrevesse carta com notícias do Brasil – é a música que sobreviveu com maior nitidez na memória popular. O monumental arranjo de cordas da gravação original ostenta a maestria do maestro britânico Phil Ryan (1946 – 2016), responsável pela orquestração de cordas do disco.
Músicas com menor poder de sedução, Shoot me dead (Caetano Veloso, 1971) e In the hot sun of a Christmas Day (1971) – parceria de Caetano Veloso com Gilberto Gil, também exilado em Londres – completaram o repertório deste disco em que, movido pela solidão, Caetano Veloso inventariou lembranças do Brasil em relicário de dor e saudade.
O artista gravaria um segundo álbum em Londres, ainda em 1971, Transa, disco lançado em 1972 que se tornaria um dos títulos mais cultuados da discografia do cantor.
Contudo, é o já cinquentenário álbum Caetano Veloso de 1971 a mais perfeita tradução da alma triste do artista no período do exílio.