Álbum de 1971 em que Nara Leão se reconciliou com a bossa ainda soa novo, 50 anos depois


♪ MEMÓRIA – Às primeiras audições superficiais, o álbum Dez anos depois pode soar sem a chama revolucionária que pautara os discos anteriores da antenada cantora Nara Lofego Leão (19 de janeiro de 1942 – 7 de junho de 1989).
Devidamente contextualizado, o disco – gravado em 1971 no estúdio da gravadora Polydor em Paris pelo engenheiro de som identificado na ficha técnica como Mr. Bonzon – se encaixa no perfil libertário de Nara, leoa na defesa dos direitos democráticos, e ainda soa novo, 50 anos depois.
Em 1971, a bossa nova já era, aos ouvidos brasileiros, a trilha sonora de tempos idos e mais românticos. No começo dos anos 1970, o mundo vivia em efervescência, amargando o fim do sonho – sentenciado por John Lennon (1940 – 1980) – e reverberando os ecos da revolução cultural e comportamental que eclodira na década anterior. A trilha sonora preferencial era outra.
Asfixiado por regime ditatorial que mantinha a máquina da repressão acionada a todo vapor, o Brasil assistia à ascensão da MPB projetada na era dos festivais. Na área musical, a MPB se tornava a arma de cantores e compositores na luta pela liberdade de expressão, com direito a patrulhamento ideológico que marginalizava quem se omitia ou se posicionasse do outro lado do front.
Foi nesse contexto que Nara Leão reapareceu no mercado fonográfico brasileiro após dois anos – o último álbum da cantora tinha sido Coisas do mundo, editado em 1969 – com LP duplo em que, enfim, registrava em disco o cancioneiro da Bossa Nova, movimento musical de 1958 do qual recusara o posto de musa.
Cantora de origem capixaba e vivência carioca, Nara participara da cena que desaguou na bossa nova porque o apartamento do pai da artista, Jairo Leão, tinha sido uma das sedes das reuniões que aglutinavam jovens decididos a mudar o mundo com um banquinho e um violão. Carlos Lyra, João Gilberto (1931 – 2019) e Roberto Menescal estavam entre estes jovens que gravitavam em torno das rodas de violão no apartamento do pai de Nara.
Contudo, embora algumas vezes tenha cantado o repertório daquela turma genial em shows, Nara se recusou a ser enquadrada no rótulo de “musa da bossa nova” e a gravar discos com o cancioneiro fundamental da bossa por questões artísticas e pessoais.
Foi somente na França que, em acerto de contas com a afetiva memória musical dos anos de juventude, a artista resolveu registrar em disco as canções da bossa nova. A França era o país onde Nara se exilara voluntariamente com o marido Carlos Diegues no fim de 1969, em Paris, decidida a encerrar a carreira de cantora e a fugir das ameaças da ditadura que combatera com série de discos que fizeram de Nara uma das vozes que mais resistiram à repressão oriunda do golpe militar de 1964.
Em 1970, Nara desistiu de desistir do ofício de cantora enquanto esperava o nascimento da primeira filha, Isabel Diegues, nascida em Paris em setembro daquele ano. E, longe do Brasil, começou a se reconciliar com a bossa nova.
Com título alusivo ao fato de Nara ter começado oficialmente a carreira de cantora em 1961, o álbum duplo Dez anos depois encadeou 24 composições que, reunidas, formam quase um greatest hits da bossa nova. O “quase” fica por conta de Nara ter deliberadamente excluído do repertório os standards indispensáveis da parceria de Roberto Menescal com Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994).
Então diretor artístico da gravadora Philips, companhia pela qual o álbum Dez anos depois foi editado no Brasil com capa que expôs Nara em Paris em foto de Nei Sroulevich, Menescal organizou a produção do LP duplo e atuou como arranjador em função dividida com o pianista Luiz Eça (1936 – 1992) e com o maestro Rogério Duprat (1932 – 2006).
Acima de tudo, Menescal era amigo de Nara. Só que pagou o preço de ter composto canções fundamentais com letras de Bôscoli, desafeto público de Nara por ter magoado profundamente a cantora na primeira metade dos anos 1960, quando a namorava e a traiu com a Maysa (1936 – 1977), cantora cuja presença pairou curiosamente na última das 24 músicas do disco.
É que, na edição original do álbum Dez anos depois no formato de LP duplo, o lado B do disco 2 se encerrava com Demais (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959), composição associada à voz e aos excessos de Maysa.
Reouvido em 2021, Dez anos depois se confirma título antológico da discografia brasileira não somente por ter promovido a conversão (fonográfica) de Nara Leão ao cancioneiro da bossa nova, mas também por ter juntado a artista com a cantora, compositora e violonista Tuca (1944 – 1978), artista paulistana cultuada pelo álbum Drácula, I love you (1974).
Em 1971, Tuca estava morando em Paris e, em feliz conexão com Nara, foi convidada pela cantora para tocar violão no disco em que Nara se reencontrava com o cancioneiro da bossa nova após afastamento provocado em parte pelo desentendimento com Bôscoli, a quem Nara nem cogitava perdoar em 1971, inclusive porque, na época, Bôscoli, estava casado com Elis Regina (1945 – 1982), rival declarada de Nara.
Enredos afetivos à parte, Tuca teve presença decisiva na arquitetura do álbum parisiense de Nara Leão por ter tocado o violão ouvido no disco 1 nos registros de músicas como Insensatez (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) e Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) – e também o piano que percorre Estrada do sol (Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1958).
Na concepção original de Nara, Dez anos depois seria álbum de voz e violões – o de Tuca e o da própria Nara – com fidelidade ao espírito minimalista da bossa nova. Entretanto, orquestrações foram posteriormente adicionadas à parte do repertório, já no Brasil, precisamente no estúdio da Companhia Brasileira de Discos (CBD) na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
É como se Dez anos depois reunisse dois discos distintos em forma de álbum duplo. Proeminentes no LP 2 da edição original do álbum, as cordas saltaram aos ouvidos nas gravações da canção Por toda a minha vida (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) e do samba Outra vez (Antonio Carlos Jobim, 1954) – faixas arranjadas por Luiz Eça – e também de O amor em paz (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960), faixa orquestrada por Menescal.
Na seara do arranjo, a maestria de Rogério Duprat foi reiterada com a orquestração leve e sedutora de Primavera (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964) e com a moldura de Minha namorada (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964), duas das cinco músicas – dentre as 24 selecionadas por Nara – sem a assinatura de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994).
Sim, o álbum Dez anos depois é quase um songbook em que Nara canta Jobim, com direito a um lado B como O grande amor (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960).
Fora do território soberano de Jobim, Nara dá voz aos sambas Você e eu (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1961) e Rapaz de bem (Johnny Alf, 1955) – ambos no clima eternamente jovial da bossa nova – e à menos ouvida composição Vou por aí (Baden Powell e Aloysio de Oliveira, 1964), música que havia sido lançada pela própria cantora há sete anos no primeiro álbum da artista, Nara (1964), de tom engajado.
Em essência, o álbum Dez anos depois flagrou a leoa pacificada com a bossa nova e cada vez mais (cons)ciente da força da voz que, mesmo sem grande volume, amplificou os anseios de geração de opinião que jamais se calou na luta pela liberdade de expressão.
Ao completar cinco décadas de vida em 2021, o álbum Dez anos depois insiste na juventude e soa novo como em 1971.