Advogada cria bezerra em Roraima e diz que pet a ajuda tratar depressão: ‘amor recíproco’


Advogada Otacília Brito, de 24 anos, é dona de Pipoca, uma bezerra, de seis meses, que antes era criada em uma fazenda no interior de Roraima. A jovem relata que sempre teve sonho de criar como mascote uma vaca. Advogada cria bezerra como pet em Roraima
“Relação de ajuda e amor recíproco”. É assim que a advogada Otacília Brito, de 24 anos, descreve a convivência com sua pet, a bezerra Pipoca, de seis meses. Juntas desde 9 de setembro, a jovem – que é apaixonada por vacas – afirma que o novo “bichinho” trouxe ânimo no tratamento contra a depressão.
Dada de presente pela mãe de Otacília, Pipoca era criada em uma fazenda, no interior de Roraima, antes de morar no quintal da advogada, em Boa Vista. Por conta desse passado, os primeiros dias não foram fáceis. Sem costume de contato com humanos, a bezerra dava “cabeçadas” na nova dona.
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“A criação que ela tinha era solta em um pasto e, o único contato com seres humanos, era uma coisa distante, onde alguém ia lá enxotá-la de um lugar para outro, fazer a criação de abatedouro e ela não estava acostumada com uma criação mais próxima”.
“Eu tocava nela e ela achava ruim. Levei algumas cabeçadas no início. Nunca cheguei a levar um coice, mas ela tentou no começo. Foi uma semana até ela entender que eu não era uma inimiga. Passávamos bastante tempo juntas. Ela vinha para dar uma cabeçada, e eu segurava a cabeça dela para fazer carinho. Foi todo um processo de estabelecer uma confiança dela em mim”, relata Otacília.
A advogada Otacília Brito, cria a bezerra Pipoca de seis meses como pet
Caíque Rodrigues/G1 RR
E foi nessa construção de afeto que Pipoca passou a exercer um grande papel no tratamento de Otacília contra a depressão. Como a bezerra é criada no quintal, a advogada passou a sair mais do isolamento no próprio quarto e assim, nutriu o amor entre as duas.
“Eu tenho um processo longo de depressão e isso faz a gente querer se isolar, querer se trancar. A Pipoca me obrigou a ter que sair de dentro do quarto para fora, que é onde ela fica. Todo o dia de manhã, quando eu acordo, vou pra fora ficar com ela. Pego sol e passamos um tempo juntas”.
“Estabelecer essa relação de confiança com ela me ajudou muito a entender relações de confiança em geral, com seres e até com pessoas que estão traumatizadas, que têm certa vulnerabilidade”, confessa.
Otacília dando banho na bezerra Pipoca
Caíque Rodrigues/G1 RR
Otacília conta que, depois desses primeiros dias, a relação com a pet tem sido de amor, carinho e companheirismo. Pois, segundo ela, com tratamento de afeto, diferente do que é dado em algumas fazendas, Pipoca deixou de vê-la como “inimiga”.
“Hoje em dia, na hora que me vê abrindo o portão, se ela estiver em qualquer lugar, vai direto para o lugarzinho onde eu costumo fazer carinho nela. Quando eu sento, ela já chega, fica esfregando a cabeça, me lambendo, e se esfrega em mim”, relata Otacília.
Sonho realizado
Além de advogada, Otacília é defensora dos direitos dos animais. Desde 2016, quando se tornou vegetariana, a jovem passou a ter vontade de criar, com afeto, um animal como uma vaca, pois conforme ela, esses bichos costumam ser criados para o consumo humano.
“A Pipoca tem o papel de representar que o amor por animais não precisa ser restrito aos cães e gatos”, declara.
“Quando me tornei vegetariana, percebi que vacas são tão dignas de carinho e tão merecedoras de respeito como qualquer outro pet que as pessoas geralmente criam. A partir disso, eu sempre tive esse sonho de ter uma vaquinha, um porquinho, um carneirinho, algum bichinho desses que as pessoas usam como animais de consumo”, diz.
A advogada Otacília conta que considera a bezerra Pipoca um animal “resgatado”
Caíque Rodrigues/G1 RR
Apesar de Pipoca ter sido dada como presente pela sua mãe, Otacília considera que a bezerra foi “resgatada”, tendo em vista o local em que ela nasceu e o destino que a aguardava.
“Minha mãe sempre faz viagens pelo interior, então ela conhece muitas pessoas que criam esses animais e surgiu a oportunidade de trazer a Pipoca. Eu nunca tinha ido atrás, pois não queria comprar. Sou totalmente contra a compra de animais, e a minha intenção sempre foi resgatar mesmo. Pegar um animal que serviria de uso de consumo, ou uma vaca que serviria para indústria leiteira ou abate”, conta.
Otacília Brito tem uma tatuagem que homenageia as vacas
Arquivo Pessoal
A paixão por vacas é tanta que esse amor foi gravado na pele da advogada. Segundo ela, esses animais “são muito carinhosos”.
“Sou muito apaixonada, fico vendo vídeos de vacas sempre em santuários, onde elas são bem tratadas e, quando bem tratadas, são muito carinhosas e amáveis”.
“A Pipoca é muito amada. É um animal de estimação tanto quanto meus cães e gatos”
Caíque Rodrigues/G1 RR
Outros pets
Apesar de ter se tornado o xodó da casa, Pipoca divide a atenção de Otacília com outros animais resgatados pela advogada. E, além disso, a bezerra não foi a única a ganhar nome de comida.
Ao todo, são oito gatos e sete cães que dividem espaço no quintal da casa. Nessa lista, há nomes como Tapioca, Batata, Pimenta, Banana e Goiaba.
Pipoca com um dos animais criados pela advogada
Arquivo Pessoal
A convivência entre todos os pets, de acordo com a advogada, é tranquila e eles receberam “muito bem” a nova colega Pipoca.
Recentemente, no entanto, uma das gatas criadas por Otacília desapareceu. Priscila, como é chamada a pet, tem pelo nas cores cinza e branco (Veja a imagem abaixo). Qualquer informação sobre ela, pode ser repassada ao telefone 95 99126-8085.
Priscila, gatinha desaparecida de Otacília
Arquivo Pessoal
Defesa dos animais
Otacília Brito é presidente da Comissão de Proteção aos Direitos dos Animais na Ordem dos Advogados de Roraima (OAB-RR), que tem o intuito de educar e conscientizar sobre os direitos dos animais.
“Ano passado eu requeri da OAB a criação da Comissão de Proteção de Direito dos Animais e eu fui nomeada presidente. Desde então, lançamos campanhas para ajudar animais em situação de vulnerabilidade. Buscamos ensinar sobre o direito dos animais, sobre como cuidar devidamente e o que fazer quando se deparar com um animal maltratado, como e onde denunciar, para que número ligar e com quem entrar em contato”.
Otacília Brito é presidente da Comissão Especial de Proteção aos Direitos Animais da OAB/RR
Reprodução/Instagram
Mas o trabalho de Otacília na defesa dos animais começou antes, quando se tornou vegetariana, em 2016, e passou a questionar a forma como os humanos tratavam certos animais com amor e outros como alimento. Depois de muita pesquisa, decidiu mudar seus hábitos alimentícios.
“Sempre me pareceu estranho o conceito de consumir animais, pois eu sempre senti amor pelos animais que tenho em casa, e os que eu consumia também eram animais. [A partir daí] Eu comecei a pesquisar sobre a indústria carnista, sobre a quantidade de malefícios da indústria no planeta”.
“Diversos motivos me fizeram virar vegetariana. Eu acho importante que as pessoas deem visibilidade para isso, por mais que falem ‘”eu não consigo virar vegetariano'”, mas pelo menos entendam a importância da causa e respeitem, pois é necessária”.
A Comissão, presidida pela advogada, inaugurou recentemente no bairro Centenário, zona Oeste da capital, um espaço de arrecadação no Centro de Controle de Zoonoses com intuito de receber doações de rações, materiais de limpeza ou medicamentos veterinários para ONGs de proteção animal do estado.
Os trabalhos feitos pela Comissão Especial de Proteção aos Direitos Animais da OAB/RR podem ser acompanhados pelo Instagram.
“Ela me ajuda e eu ajudo ela” Otacília sobre a relação com a bezerra Pipoca
Caíque Rodrigues/G1 RR