A surpreendente descoberta de que o ‘Homo sapiens’ conviveu com antecessores além do que se imaginava

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<img class="croppable" src="https://img.r7.com/images/homo-erectus-19122019141620120?dimensions=660×360" title="Reconstrução do Homo erectus, conhecido como o primeiro ser humano a andar totalmente ereto" alt="Reconstrução do Homo erectus, conhecido como o primeiro ser humano a andar totalmente ereto" />
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<span class="legend_box ">Reconstrução do Homo erectus, conhecido como o primeiro ser humano a andar totalmente ereto</span>
<span class="credit_box ">Science Photo Library </span>
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Um ancestral do homem moderno sobreviveu até relativamente pouco tempo atrás no sudeste da Ásia. É o que mostra um novo estudo, publicado na revista científica Nature.</p>
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O <em>Homo erectus</em> evoluiu há cerca de dois milhões de anos – e foi a primeira espécie humana a caminhar erguida sobre os dois pés.</p>
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As novas evidências indicam que ele viveu até pouco mais de 100 mil anos atrás, na Ilha de Java, na Indonésia, muito tempo depois de ter desaparecido de outros lugares.</p>
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Isso significa que ele ainda existia quando a nossa espécie já vagava pela Terra.</p>
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<strong><a href="http://http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/a-incrivel-descoberta-de-desenho-de-animal-com-44-mil-anos-de-idade-em-caverna-12122019" target="_blank">A incrível descoberta de desenho de animal com 44 mil anos de idade em caverna</a></strong></p>
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Na década de 1930, 12 partes de crânios e dois ossos de pernas de <em>Homo erectus</em> foram encontrados em escavações realizadas 20 metros acima do rio Solo, em Ngandong, no centro de Java.</p>
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Nas décadas seguintes, os pesquisadores tentaram datar os fósseis. Mas tiveram dificuldade, uma vez que a geologia da região é complexa, e os detalhes das escavações originais acabaram se perdendo.</p>

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<span class="legend_box ">Russell Ciochon posa com réplicas dos crânios de ‘Homo erectus’ encontrados em Ngandong</span>
<span class="credit_box ">Tim Schoon/University of Iowa</span>
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Nos anos 1990, uma equipe chegou inesperadamente à conclusão de que datariam de 53 mil a 27 mil anos atrás. Isso levantou a possibilidade de o homem moderno ter sido "contemporâneo" do <em>Homo erectus</em> na ilha.</p>

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<div class="content">Datas mais precisas</div>
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Agora, pesquisadores liderados pelo professor Russell Ciochon, da Universidade de Iowa, nos EUA, realizaram novas escavações ao longo do rio Solo, analisando novamente o sítio arqueológico e seus arredores.</p>
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E forneceram o que eles descrevem como uma idade definitiva para o chamado leito ósseo – entre 117 mil e 108 mil anos. É o registro mais recente que se tem conhecimento do <em>Homo erectus</em> em qualquer parte do mundo.</p>
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O professor Chris Stringer, líder de pesquisa em evolução humana no Museu de História Natural de Londres, que não participou do estudo, comentou a descoberta.</p>
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"Este é um estudo muito abrangente no âmbito de deposição dos famosos crânios parciais e da tíbia do <em>Homo erectus</em> de Ngandong, e os os autores constroem um forte argumento de que esses indivíduos morreram e foram levados pela água para os depósitos sedimentares do rio Solo, há cerca de 112 mil anos."</p>
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"É uma idade muito jovem para esses fósseis de <em>Homo erectus</em> de aparência primitiva, e determina que as espécies continuaram em Java por muito mais de um milhão de anos."</p>
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Os pesquisadores acreditam que os restos mortais em questão representam um evento de morte em massa, possivelmente resultado de um <em>lahar</em> rio acima. Um <em>lahar</em> – palavra de origem javanesa – é a lama que pode descer pela encosta de um vulcão durante tempestades fortes ou após uma erupção vulcânica. Esses eventos violentos varrem qualquer coisa que esteja no caminho.</p>
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Anteriormente, Frank Huffman, um membro da equipe, da Universidade do Texas, nos EUA, havia rastreado e entrado em contato com descendentes dos pesquisadores holandeses que escavaram os restos mortais do <em>Homo erectus </em>na década de 1930.</p>

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<span class="legend_box ">As escavações foram realizadas ao longo do rio Solo, no centro da Ilha de Java</span>
<span class="credit_box ">Kira Westaway, Macquarie Univ</span>
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 Os familiares deles forneceram fotografias da escavação original, mapas e cadernos de anotações. Huffman conseguiu acabar com grande parte da incerteza que havia dificultado as tentativas anteriores de entender o sítio arqueológico.</p>
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"Ele foi capaz de nos dizer exatamente onde cavar", declarou Ciochon, se referindo ao pesquisador da Universidade do Texas.</p>
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Ciochon e seus colegas escavaram parte de uma área de reserva intocada, abandonada pela equipe holandesa na década de 1930. Munida dos registros das escavações originais, a equipe conseguiu identificar o leito ósseo de onde os fósseis do <em>Homo erectus</em> vieram e datá-lo.</p>
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Em outras ilhas do sudeste Asiático, o <em>Homo erectus</em> parece ter evoluído para formas menores – como o <em>Homo floresiensis</em> (o "Hobbit"), em Flores, e o <em>Homo luzonensis</em>, nas Filipinas. Provavelmente, isso aconteceu porque havia recursos alimentares limitados nessas ilhas. Mas em Java, parece que havia comida suficiente para o <em>Homo erectus</em> manter seu tamanho corporal original.</p>
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Tudo indica que as espécies de Ngandong tinham entre 1,50 e 1,80 metros de altura – semelhante às que viveram na África e em outros lugares da Eurásia.</p>

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<span class="legend_box "> Escavações realizadas em Ngandong em 2010</span>
<span class="credit_box ">Russell L. Ciochon, Univ. of Iowa</span>
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As descobertas reforçam ainda mais a mudança de pensamento pela qual essa área de estudo passou ao longo das décadas. Costumávamos pensar na evolução humana como uma progressão, com uma linha reta que começava nos macacos e chegava até nós.</p>
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Hoje em dia, sabemos que as coisas eram muito mais confusas. Este estudo destaca um fato impressionante: muitas espécies que considerávamos estágios de transição nessa "marcha" se sobrepuseram, em alguns casos por centenas de milhares de anos.</p>
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Mas por que o <em>Homo erectus</em> sobreviveu mais do que se pensava em Java? Na África, a espécie provavelmente desapareceu há 500 mil anos; na China, há 400 mil anos.</p>
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Russell Ciochon acredita que ele provavelmente foi "superado" por outras espécies humanas nos demais lugares, mas a localização da Ilha de Java permitiu que prosperasse isoladamente.</p>
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No entanto, os resultados mostram que os fósseis remetem a um período em que as condições ambientais em Java estavam mudando – o que antes eram campos abertos começaram a se transformar em florestas tropicais. E, para o pesquisador, isso marca o momento exato da extinção do <em>Homo erectus</em> na ilha.</p>

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<div class="content">Última aparição?</div>
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Segundo ele, nenhum <em>Homo erectus</em> foi encontrado após esse período – e existe uma lacuna sem atividade humana até o <em>Homo sapiens</em> aparecer em Java há cerca de 39 mil anos. Ciochon acredita que o <em>Homo erectus</em> era muito dependente da savana aberta e inflexível demais para se adaptar à vida em uma floresta tropical.</p>
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"O <em>Homo sapiens</em> é a única espécie de hominídeo que vive em uma floresta tropical", explicou. "Acho que isso se deve principalmente aos atributos culturais do <em>Homo sapiens,</em> à habilidade de criar todas essas ferramentas especializadas".</p>
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"Quando a flora e fauna da floresta tropical se espalharam por Java, foi o fim do <em>Homo erectus</em>."</p>
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Mas Chris Stringer recomenda cautela na análise.</p>
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"Os autores argumentam que esta é, portanto, a última ocorrência conhecida da espécie, e que isso indica que não houve sobreposição da espécie com o <em>Homo sapiens</em> em Java, já que o <em>Homo sapiens</em> chegou (na ilha) bem mais tarde."</p>
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"Não estou convencido disso, já que outros restos mortais supostamente tardios do <em>Homo erectus</em> de sítios arqueológicos javaneses, como de Ngawi e Sambungmacan, ainda precisam ser propriamente datados e podem ser ainda mais recentes. Por outro lado, eles podem estar correlacionados com a idade dos fósseis de Ngandong, mas esse deve ser o próximo passo da investigação", completa.</p>