A sociedade paralela das redes sociais

Por Cid Vianna

Antes de despertar a ira dos indignados de plantão, quero que fique muito claro que não sou, em hipótese alguma, contra as redes sociais em nenhuma das suas amplas variações de utilização.  Ao contrário!

Como profissional da área de tecnologia, e sendo um entusiasta em inovação, seria uma idiotice descabida levantar bandeiras contra o uso das redes sociais ou colocar em dúvida a importância delas como ferramentas de transformação.  Inclusive, em diversos artigos que já escrevi sobre este tema, procuro enfatizar a necessidade de estar inserido no meio digital e o quanto as redes sociais podem ajudar a romper barreiras e paradigmas, que até pouco tempo atrás eram intransponíveis para a grande maioria.

O ponto em questão aqui é outro.  Não é o “utilizar”, mas o como se utiliza.

Vivemos em um mundo digital, virtual, abstrato, onde não temos amigos, mas seguidores, em que na sua grande maioria sequer conhecemos pessoalmente. Um mundo no qual a aceitação dos nossos pontos de vista depende da quantidade de “likes” que recebemos a cada postagem e que nossa felicidade é medida de acordo com a quantidade de fotos bacanas que postamos.

Todos são felizes e tudo é festa nas vidas no Facebook. No Instagram, o colorido exuberante das paisagens nas fotos somente é ofuscado pela extensão dos sorrisos estampados em cada rosto.  O prefácio no Linkedin que antecede a perfeita carreira profissional é sempre marcado por siglas carregadas de sofisticação e modismo do tipo CEO e CFO ou então por títulos que procuram de todas as formas expressar um alto nível de ascensão profissional.  Sem falar que todo mundo é bonito e interessante nas redes de relacionamento.

Mas, muitas vezes eu me pergunto:  quanto disso realmente expressa o que somos?

Honestamente não acho que toda essa alegria e sucesso demonstrados através das redes sociais sejam falsas, bem como não posso acreditar que tudo e todos estão sendo hipócritas em seus muitos perfis eletrônicos.  No meu íntimo, até que eu gostaria de acreditar que 100 % é a pura verdade.

Minha incredulidade mora nos números que a realidade fora das redes nos joga na cara todos os dias.

Nunca os índices de casos de depressão, síndromes de pânico e fobias das mais variadas ordens foram tão elevados.  Neste rastro, ou em consequência dele, os casos de suicídios vêm aumentando em proporções alarmantes.  Se fizermos uma sobreposição baseados na faixa etária do estudo dos casos de suicídio, com os estudos de utilização das redes sociais, chegaremos a grandes índices de coincidências.

Outra coincidência interessante neste aspecto é que a maioria das pessoas que procura tratamento para depressão, atribui a solidão como sendo o principal motivo de angústia e fator deprimente.  Entretanto, estas mesmas pessoas têm perfis em redes sociais em que contam com uma grande quantidade de “amigos” virtuais.

E assim poderíamos continuar, quase que de forma interminável a traçar paralelos entre estes dois aspectos comportamentais.

Mas meu objetivo não é comprovar ou validar alguma tese.  Meu objetivo é trazer à tona uma reflexão simples e quase óbvia, mas que parece passar desapercebida pela maioria.

Não existem dois mundos paralelos, o real e o das redes sociais!

Não precisamos postar nossas frustrações, nossas tristezas e fraquezas nas redes sociais.  Isso seria autoflagelo e não é para isso que serve o nosso perfil na internet.  Porém, não precisamos e não devemos nos esconder atrás deste mesmo perfil para transparecer uma imagem perfeita para quem interessar possa.

Precisamos entender e aceitar que todos nós temos frustrações, tristezas e fraquezas e que tentar demonstrar o contrário a todo custo o tempo todo é no mínimo desonestidade.  Desonestidade para com os outros e principalmente para com você mesmo.

Nosso perfil nas redes sociais deve ser uma ferramenta para tentar de forma sucinta mostrar um pouco de quem somos, o que andamos aprontando e de quais são nossos objetivos e expectativas.  É o seu momento de marketing pessoal.

Uma grande vitrine que nos permite, seja profissionalmente ou por diversão, expandir nossas fronteiras e nos demonstrar para o mundo. A função disto é apenas dar o pontapé inicial na dinâmica que deverá ser continuada de forma a nos aproximar cada vez mais, até que cheguemos no âmbito pessoal.  Cara a cara.

Não se iluda! Ninguém contrata um profissional somente pela análise do perfil na rede social. É um bom começo, verdade, mas certamente haverá um momento em que se fará necessária a entrevista, o meeting, o bate-papo ou como você preferir chamar.  Do mesmo jeito, ninguém em sã consciência toma a decisão de casar-se, morar junto, unir as escovas de dentes, sem no mínimo um encontro físico (às vezes bem físico!)

Precisa ser assim, afinal o mundo é feito de pessoas não de perfis.  E isso a tecnologia não vai mudar.

Cid Vianna assina a Coluna Quarta Ponto Zero, no Inova360, parceiro do portal R7. É diretor de novos negócios do Grupo T2I e apresentador do quadro Quarta Ponto Zero no programa de TV Inova360, na Record News.

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