A receita de ‘Bala love’: funk de BH domina o Brasil com batidas ‘viajadas’ e dancinhas do TikTok


Funks mineiros são os mais tocados no país atualmente. DJs criaram ritmo lento e melódico com sons de games, desenhos e recortes sonoros que o Brasil inteiro quer dançar – e copiar. Nova geração do funk de BH. Em cima: DJ MC do MDP, DJ PH da Serra, MC Anjim. Embaixo: MC Rick, MC Mika e MC Zaquin
Divulgação / Twitter e Instagram dos artistas
O funk mais tocado no Brasil atualmente é “Bala love”, do MC Anjim. Ele tomou o lugar do número 1 anterior, “Não nasceu pra namorar”, do MC Zaquin. Os diminutivos nos nomes entregam a origem comum: o funk de Belo Horizonte comeu “quietim” e ganhou o Brasil.
O podcast g1 ouviu explica o som “brisado” dos mineiros e conversa com os músicos que criaram essa batida viajada, que todo mundo quer dançar em desafios no TikTok e copiar no resto do Brasil. Ouça abaixo.
Os DJs criaram uma levada lenta e envolvente com uma variedade incrível de sons: barulho de latinha, chiado, violino recortado, flauta sintetizada, toque de telefone, gritinho de Bob Esponja, Pikachu e Pica-Pau, luta de Mortal Kombat, King of Fighters…
O “pique BH” nasceu de uma cena menos prestigiada que a de SP e do Rio, mas cheia de músicos sagazes para transformar qualquer coisa em um funk original com melodias ricas. Agora os paulistas copiam esse som, como no hit “Bipolar”, feito 100% na receita mineira.
Hoje, BH renova e domina o funk brasileiro. Mas o ritmo está longe de ser novo na cidade, onde os bailes funk rolam desde os anos 80. Mesmo a novíssima geração tem precedentes conhecidos, com sucessos nacionais que demarcaram o seu território.
Em 2015, o MC Delano lançou “Na ponta ela fica”. Delano é apontado por dez entre dez funkeiros como padrinho da nova cena da cidade, com sua marca melódica, lenta, e sem medo de misturas. Seus “alunos” de BH aplicaram as lições de um jeito bem livre.
“Parado no bailão” foi um dos maiores sucessos na internet de 2018. Os cantores são o mineiro L Da Vinte e o paulista Gury, com dois produtores de BH: Swat e o próprio Delano. O g1 mostrou na época como a faixa projetou as batidas “espaciais” de BH para o Brasil.
Mas “Parado no bailão” ainda tinha uma mineiridade contida e amenizada com doses do som padrão dos paulistas da época. Já havia discípulos de Delano mais ousados, como o MC Rick, reconhecido já na época como a grande voz da nova cena mineira.
Rick achou sua voz
MC Rick no clipe de ‘Nada vai mudar’, da Doug Filmes
Divulgação
MC Rick é áspero na voz e nas letras sexuais – o tema é livre e solto nas letras de BH. Ele canta e produz desde cedo, apadrinhado por Delano.
O início foi no Morro do Papagaio, na Zona Sul de BH. O pequeno Rick emplacou “Sarrou, gostou”, com produção do seu mentor, em 2014.
O som ainda não era tão distinto e a voz não tinha a marca do Rick. Mas ele já era ligeiro e aprendeu com o Delano a produzir. MC Rick levou três anos para emplacar outra música. E também demorou a achar sua voz depois da fase mirim.
“Minha voz foi mudando, eu estava começando a desafinar as melodias. Fiz aula de canto, mas eu não gostava. Aí comecei a descobrir meu pique, fui apropriando para um jeito que ficava bom. Cheguei nesse pique reto”.
Rick diz que ouviu muito rap até achar a levada de hits como “Nada vai mudar” e “Quebra quebra menozada”. Apesar de agressivo, o vocal não é duro. Em música como “Mec mec”, como se fosse um João Gilberto funkeiro, ele adianta e acelera os versos e desliza no ritmo.
Zaquin: fé no funk
MC Zaquin
Divulgação
Rick fez uma boa parceria com a voz mais suave do conterrâneo MC Zaquin. Eles gravaram “Não Nasceu Pra Namorar”, funk mais tocado do Brasil em agosto.
Zaquin cresceu em Venda Nova, na zona norte de BH. Ele tem três músicas no Top 200 nacional do Spotify atual (“Não nasceu pra namorar”, “Ô moça” e “Ei tudo bem”). Sua voz é a mais romântica e suave da cena – não por acaso, assinou contrato com a Universal Music.
O gosto pela melodia e por letras (um pouco) menos sexuais tem explicação: ele aprendeu a cantar na Comunidade Evangélica Unidos em Cristo, onde seus pais eram pastores.
O pai morreu em 2013, e Zaquin foi trabalhar. Vendeu água no sinal, fone de ouvido na rua e foi office boy. Juntou dinheiro e apostou na música. Para não assustar a mãe, as letras eram mais suaves como do Kevinho, ídolo de SP. Mas a base é toda no “pique BH”.
“É ritmado demais o pique daqui. Mistura tudo – é só organizar que dá certo”, ele define. “Imagina você no baile, aí ouve uma garrafinha quebrando, tum, um passarinho piando, umas panelas batendo…. Você começa a se envolver”, descreve Zaquin.
A voz dele subindo de tom em “Ô moça” é imitada por MCs de outros lugares. “Falavam que o funk de BH era embolado, avacalhado, que ninguém ia curtir, só o pessoal daqui mesmo. Agora os caras lá de fora estão pegando referência. Maior hipocrisia”, diz aos risos.
Nova tropa
MC VH Diniz, MC Mika e DJ Cayoo, da Tropa 7LC
Divulgação / Intagram do artista
Antes de contrato com gravadora multinacional, o funk de BH cresceu em tempos improvisados e caseiros. Uma das origens da novíssima geração é a produtora Tropa 7LC, no aglomerado da Serra, maior favela de BH, na zona sul.
Pela 7LC passaram MCs como Vitin LC, Laranjinha e Anjim. Um dos primeiros sucessos foi a “Mega da panelinha”, do MC Anjim, produzida pelo DJ Cayoo.
“Na época eu produzia na casa da minha avó, achando o máximo. No outro dia ia ter esse evento, ninguém sabia que ia ter a música, a gente chegou e tocou”, lembra Cayoo. A faixa virou um sucesso ali mesmo. “Todo mundo ficou chocado”, ele diz.
“A panelinha era a festa que eu fazia na cobertura da minha casa”, diz Xapi, dono da produtora. Ele fazia eventos em BH e conheceu o pessoal da empresa paulista GR6. “Os meninos chegavam do lado do palco e falavam: Deixa eu cantar com o Don Juan”.
Mal ele sabia que os meninos pedindo espaço no palco iam fazer hoje músicas que tocam tanto quando as da GR6 – e ainda serem copiados por eles. “Cresceu de uma forma que Nossa Senhora…” diz Xapi. “Tenho o maior orgulho de ver a galera batendo milhões.”
Anjim: melodia ‘rastadinha’
MC Anjim
Divulgação / Twitter do artista
A maioria dos MCs da panelinha foi para outras produtoras. Um deles, que montou escritório próprio, foi o MC Anjim, de “Bala love”, funk número 1 no Brasil desde o início de setembro, produzido pelos DJs PH da Serra e LV do MPD.
Anjim era skatista e tem um jeito chapado de cantar que entrega sua influência de trap, a variação arrastada do rap americano. Ele foi colega de sala do maior ídolo do trap mineiro, o MC Sidoka, no Colégio Estadual Central. “Lá onde a Dilma já estudou”, explica Anjim.
“Eu sempre tive esse jeito de cantar do trap”, diz Anjim. Ele define seu estilo como de “melodia arrastadinha” (ou ‘rastadinha’, na pronúncia em mineirês)”. As letras repetem as referências lisérgicas do trap, e viraram sua marca na música “Água rosa”, sucesso produzido por PH da Serra.
“Água rosa” deu segurança a Anjim na empreitada seguinte. “Nós estamos sabendo melhor onde chegar e como fazer.”
“Então eles a ideia foi: vamos fazer um hit daqui, com a cara de Belo Horizonte, para ficar total diferente de lá”, ele diz.
Engenheiros do pique
Da esquerda: LV do MDP, MC Anjim e PH da Serra na gravação do clipe de ‘Bala love’, no Morro das Pedras, em Belo Horizonte
Divulgação
E qual é a cara de BH? “Tudo para a gente é beat, essa é a verdade”, diz LV do MDP. Em sua música anterior com Anjim, “Postura de bandido mau”, ele botou barulhos do Pikachu. Em “2k19”, PH montou a batida a partir do som do Gary, o caramujo de Bob Esponja.
PH da Serra é a grande referência desse funk atmosférico. O DJ de 24 anos começou em 2015 após juntar dinheiro como office boy. (Curiosidade: da Asspron, empresa que contrata jovens aprendizes para órgãos públicos em Minas, saíram ao menos quatro estrelas da nova geração: PH, LV, Anjim e Zaquin.)
Ele aprendeu a criar música sozinho no computador, mas sem disciplina. “Eu não via videoaula, fazia os bagulhos do meu jeito. E toda vez que eu tentava fazer uma coisa, saía meio lenta. Não sei o que acontece. E nesse negócio de ficar lento, fui desenvolvendo o ‘pique BH’,”
“Eu não tinha maldade. Fazia as músicas e, quando chegava nos bailes para tocar, ninguém dançava, ficava todo mundo meio assistindo. Porque não era um bagulho para dançar, era para escutar”, descreve o DJ PH.
Esse som atmosférico que fazia o povo dos bailes coçar a cabeça foi descrito em um artigo do pesquisador Gabriel Albuquerque, que destacava desde 2017 a originalidade do funk mineiro, chamado: “Funk de BH: o surgimento de um ambient space funk?”
“Depois esse pique ia ser comercial, como está sendo hoje”, diz PH. Explorar essa evolução mais acessível – mais ainda “espacial” – do pique BH era o objetivo do trio em “Bala love”.
Os ingredientes da ‘Bala love’
O DJ PH da Serra, que produziu ‘Bala Love’ junto com o DJ LV do MDP
Divulgação / Instagram do artista
O vocal arrastado e as referências lisérgicas de Anjim aprimoram a fórmula de “Água rosa”. LV e PH criaram a nova base a partir de um sample vocal de dancehall, o ritmo jamaicano. A escolha, segundo ele, foi pelo fato de os ritmos latinos e caribenhos serem o que há de mais pop no mundo hoje.
Eles incluíram trechos melódicos novos e feitos com recortes de samples: flautas, violinos e vocais. PH sempre insere um som do jogo Mortal Kombat; LV, de King of Fighters. A batida tem chiados, kalimba, steel drums… (Ouça a receita de “Bala love” no podcast acima).
Há muitos elementos, mas eles aparecem de forma pontual e esparsa. Ele usa bastante o efeito de “reverb” para a música fica menos seca e ganhar “vida”. Até ele mesmo se perde na origem de cada som. “Às vezes é parte de algum barulhinho que eu ouço, toque de telefone, bagulho que eu corto…”.
PH nunca teve aula formal de música. “Aprendi com o ouvido mesmo. Fui escutando e vendo a tonalidade. No começo saíam uns bagulhos errados, aí fui adaptando. Eu acho gostoso. Tenho projetos que fico ‘brisando’…”
Código aberto
MC Rick no clipe de ‘Nada vai mudar’, da Doug Filmes
Divulgação
PH da Serra não fica bravo com o uso fora de BH da receita que ele e seus colegas mineiros criaram. “Não vejo como problema, que continue assim”, diz. “Acho massa eles pegarem referência de nós, sendo que a gente já pegou com eles. Ia ser hipocrisia falar alguma coisa.”
Não são só os músicos de BH que estão em alta. Henrique Douglas dos Santos já conta mais de um bilhão de views no seu canal de clipes, o Doug Filmes. Ele é o grande criador visual da cena. Ligado no mercado digital, ele explica bem o sucesso atual do estilo.
Doug aponta dois fatores: “A pandemia e o TikTok. Quando veio a pandemia, a galera começou a se conectar de fato em tudo que é digital, porque não tinha os bailes nem os rolês. E veio a onda do TikTok, onde o beat de BH ganhou força para as dancinhas.”
O beat cheio de sons diferentões era realmente perfeito para o TikTok, onde as músicas têm que se destacar em poucos segundos. Todos os hits atuais – e que estão vindo, como “Menina se prepara”, do MC Pepeu -, explodiram no TikTok antes de outros apps.
O sucesso no TikTok vai se espalhando em streaming no YouTube e no Spotify, onde há atualmente nove funks mineiros frequentando o Top 200 nacional – sem contar os de outras cidades inspirados em BH, como os músicos paulistas de “Bipolar” assumiram ao g1.
Criadores de BH são assediados pelas produtoras de fora. A MC Morena acaba de ser contratada pela produtora paulista Kondzilla. O DJ Wesley Gonzaga entrou para a GR6, que conseguiu no ano passado um grande feito: assinar contrato com o MC Rick.
“Eles me chamaram para morar lá. Iam me dar casa lá no início de 2020. Mas eu preferi ficar, porque senão vou ficar por fora do funk daqui. Acho que foi uma boa escolha. Porque o funk de BH hoje está grande. Se eu estivesse lá hoje, estaria perdidinho”, diz Rick.
Autoestima e Pica-Pau
Outro efeito do sucesso é o impacto das letras sexuais explícitas. Elas continuam, mas os MCs tomam cuidado ao falar de sexo “sem ficar baixando a autoestima da mulher. A ideia das músicas é aumentar a autoestima. Porque o mundo mudou, não tem jeito”, diz Rick.
Um sinal disso é o sucesso da MC Mika, maranhense radicada em BH que faz sucesso com músicas como “No Twitter Provocando”, com o MC Saci. Assim como Zaquin, ela tem família evangélica. E Mika canta sobre sexo com a mesma liberdade dos homens.
MC Mika
Divulgação / Instagram da artista
“Eu já me igualei aos homens. Se eles podem mostrar a vida deles de ousadia e ostentação, a mulher também pode. Tento mostrar que a gente é capaz. Se tem vontade a gente vai, faz, canta. E não pode parar, tem que ser assim”, diz Mika.
O funk de BH aumenta sua diversidade sem perder o bom humor. A DJ Ray Lais colocou no meio de seu maior sucesso (“De 38 carregado”, com a MC paulista Drika) o áudio de um homem dizendo que ela não sabia produzir seguido som da risada do Pica-Pau.
Já Laranjinha, outro novo destaque de BH, transcendeu os termos sexuais. Ele viralizou com versos que seguem o som “brisado” dos DJs sem precisar nem de palavras, apenas com onomatopeias que sugerem sexo. Seu funk “Roct pot” já está subindo no Spotify…
MC Laranjinha
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