‘A nossa permanência na cidade é provisória’, diz advogado indígena que atua em defesa do Vale do Javari, no interior do Amazonas


Eliesio Marubo veio de uma família de 40 irmãos. Ao G1, contou que teve apenas uma oportunidade para sair da aldeia, ser alfabetizado e ingressar em uma faculdade. Eliesio tem 40 anos e desde 2016 atua como advogado.
Divulgação/Acervo Pessoal
Quando um jovem ingressa em uma universidade espera que isso lhe garanta um futuro promissor. Em alguns casos, tal feito representa o simples fato de resistir e de lutar por outros que não tiveram a mesma oportunidade. Esse é o caso de Eliesio Marubo, indígena do Vale do Javari, no interior do Amazonas. Advogado, ele encontrou na profissão a missão e o desafio de representar seu povo.
Eliesio é da etnia marubo e veio de uma família de 40 irmãos. Ao G1, contou que teve apenas uma oportunidade para sair da aldeia, ser alfabetizado e ingressar em uma faculdade. Formado, voltou para a comunidade para ajudar seu povo e lutar pelos seus direitos. Mas, a missão não é fácil.
“Meu pai teve seis mulheres e, dessa família, alguns tiveram oportunidade de sair da aldeia. Eu saí aos 16 anos. E logo que saí, tive a oportunidade de ir para Cruzeiro do Sul, a cidade que faz fronteira com a Região do Vale do Javari, e lá eu fui alfabetizado, aprendi o português. E fiquei nessa cidade algum tempo e depois vim para Manaus. Aqui eu fiz o vestibular da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e cursei direito”.
Ele disse que sempre atuou em defesa dos povos indígenas. Mas a graduação permitiu ampliar ainda mais sua atuação, principalmente dentro da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Lá, já advogado, criou uma procuradoria jurídica voltada para dar assistência ao público indígena em questões judiciais e extrajudiciais.
Advogado contou casos de preconceito e de luta.
Reprodução/Redes Sociais
“A Associação dos Indígenas do Vale do Javari tem cinco povos contactados e 16 povos não-contactados. É uma região que precisa do embate, pesquisa institucional e nada melhor do que nós fazermos a nossa própria defesa. Essa organização faz parte de outras organizações regionais e nacional. O movimento indígena não é só do Vale do Javari. Eu não faço a defesa dos povos só de lá, mas de todo o povo indígena”.
Mas no caminho da resistência, o preconceito e a falta de conhecimento também fazem parte do trajeto. No entanto, para quem passou a vida inteira tentando sobreviver, essas são questões superáveis.
“Estava em uma audiência no STJ recentemente, e um outro advogado disse ‘esses pobres indígenas’ referindo ao fato de termos origens indígenas. E até engraçado, porque lá estávamos na mesma condição. A lei não estabelece hierarquia entre as partes e nem mesmo em relação aos juízes. Mas isso não abala mais. A gente está calejado, sabe passar por cima disso”, desabafou.
O advogado também acredita que a sua função é transitória. Ele espera, no futuro, poder retornar para sua comunidade de origem e viver lá até seus últimos dias.
“A nossa permanência na cidade de forma provisória, adquirindo conhecimento, talvez passe ideia de que nós estamos nos desfazendo com o tempo. Pelo contrário, a gente vem somar conhecimento e retomar nosso lugar na história. A minha tendência pessoal é cumprir com o meu papel e ir retornando para a minha comunidade de uma maneira que eu, com um pouco mais de idade, pretendo voltar para morar na comunidade e enfim encerrar os meus dias”.
Entidade representa indígenas do Vale do Javari, no Amazonas.
Reprodução/Redes Sociais
Para as gerações futuras, Eliesio diz que a palavra de ordem é resistir. E, apesar das dificuldades, ele confessou que não se sente um vencedor, mas alguém que pôde contribuir com seu povo e ajudar a contar a história da sua gente.
“A gente não pode se deixar abalar pelas dificuldades cotidianas, seja qualquer que seja, língua, cultura… Não podemos baixar a cabeça. Comecei a minha vida do zero nesse mundo de vocês. Não me sinto vencedor, mas pude dar a minha contribuição para a minha gente, para o meu povo. A história do Vale do Javari precisa ser contada pelas pessoas corretas”, finalizou.
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