A máscara da morte rubra II



Stefano Rellandini / Reuters
“Em um reino distante grassava há muito a Morte Rubra. O príncipe Próspero, seu governante, era astuto, feliz e destemido. A terrível peste começava com manchas púrpuras na face da vítima que se espalhavam pelo corpo. Os doentes, sem auxílio e amparo de seus semelhantes, morriam em poucos dias.
Quando o príncipe viu que a metade da população havia sido dizimada, decidiu partir para um mosteiro de sua propriedade que ele mesmo ornamentara com seu gosto extravagante. Convidou um milhar de cavalheiros e damas da corte alegres, sadios e joviais para ali ficarem até que a peste fosse embora. Havia jograis, músicos, bailarinos e vinho. Cercado por grossas muralhas, os convivas estavam em segurança e com grande provisão. Lá fora reinava a Morte Rubra.”
Quando o vírus Zica espalhou-se pelo País, fui assaltada por pensamentos macabros e fantasmagóricos, Luiz Alphonsus me fez reler o conto do fabuloso Edgar Allan Poe.
O conto começa mais ou menos como resumi acima e em uma crônica no não tão longínquo ano de 2016.
Poe tinha veia de antropólogo como nos sugere Roberto DaMatta em seu estudo sobre “O gato preto”, outro conto de Poe. A morte é tema central na obra do mestre da literatura fantástica! Hoje o nosso drama se tornou planetário e “A morte rubra” quase se cola à realidade globalizada na qual estamos imersos.
Da China vem um novo vírus que, embora afete mais, como sempre, a vida dos despossuídos, parece englobar todos. Não há como se proteger. Mesmo erguendo barreiras e grossas muralhas, as enormes avenidas de Pequim e Xangai estão vazias assim como suas lojas e prateleiras de seus mercados. O mundo ficou menor e mais assustador, embora em uma semana os chineses tenham mapeado o DNA do coronavírus, como é chamada a “peste”. Porém o medo se espalha na proporção em que os suspeitos de estarem infectados crescem assustadoramente e as mortes aumentam.
Assim como o príncipe Próspero não conseguiu barrar do baile de mascarados que ofereceu a seus convivas, no mosteiro exótico nas montanhas, a máscara da morte rubra que foi passeando pelos enormes salões deixando seu rastro de sangue, as autoridades chinesas também ficaram impotentes diante do vírus. Bem que tentaram fechar as muralhas da cidade de Wuhan capital da província de Hubei epicentro da doença, mas já era tarde e o corona propagou-se em mais de vinte países, a maioria na Ásia, mas também na Europa, América do Norte e Oceania. No Brasil até agora não há confirmação de infectados, embora haja alguns casos suspeitos.
A OMS decretou tardiamente emergência sanitária global e tentou nos acalmar dizendo que o percentual de mortes nesta epidemia é menor que em anteriores. As autoridades brasileiras parecem um pouco mais inseguras diante do perigo eminente, mas nada dizem sobre o nosso ritual mais importante, o carnaval e, com medo de suspender a festa, parecem torcer para que nossas muralhas não deixem o mascarado da morte rubra entrar.
A bela e humorada crônica de Joaquim Ferreira dos Santos “O coronavírus e o carnaval”, em “O Globo” de 31 de janeiro, leva a pensar hoje, de fato, menos em Poe e mais em Roberto DaMatta na sua interpretação da festa brasileira em Carnavais, malandros e heróis. Segundo Joaquim Ferreira dos Santos, já houve um tempo em que adiaram a festa por uns dias e “quando ela veio foi mais furiosa do que nunca”.
Os brasileiros são mais apegados ao carnaval, rito de passagem de enorme centralidade na vida nacional como nos diz Roberto DaMatta, do que os chineses à sua festa do Ano Novo com o dragão dançante. As autoridades de lá cancelaram as cerimônias e festejos enquanto aqui não nos alertaram sobre esta possibilidade.
Yvonne Maggie
Arte G1