‘A lenda de Candyman’ entrega mais tensão do que terror com boas ideias em ritmo instável; G1 já viu


Continuação direta do clássico cult de 1992 ignora outras duas sequências em atualização do conto de horror que não passa da promessa de um grande filme. “A lenda de Candyman” tinha tudo para dar certo. Bons protagonistas, uma jovem diretora promissora e produção e roteiro com participação do sempre empolgante Jordan Peele (“Corra!”).
Mas, ao esbarrar em um ritmo instável que entrega mais tensão do que terror, o filme não consegue passar da promessa com algumas boas ideias que nunca são concretizadas.
A continuação direta do clássico cult de 1992, que ignora as outras duas sequências para atualizar a história do espírito vingativo em uma época de gentrificação, estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas brasileiros.
‘A lenda de Candyman’, novo terror escrito por Jordan Peele, ganha trailer; ASSISTA
A lenda invocada
Em “A lenda de Candyman”, um pintor promissor luta para se manter relevante. Para isso, busca inspiração na lenda urbana do título, sobre um assassino sobrenatural que aparece para quem falar seu nome cinco vezes em frente a um espelho.
A ideia é explorar e debater temas presentes no original, como tensões raciais nos centros urbanos e brutalização policial, enquanto traz a história para discussões mais atuais de gentrificação e exploração do corpo e da arte de afro-americanos.
Infelizmente, o roteiro de Peele, Win Rosenfeld e da diretora Nia DaCosta (“Passando dos Limites”) parece se esquecer de duas regras.
A primeira, um dos fundamentos de roteiristas, pede que as histórias mostrem, não contem. Sempre que o filme chega perto de engatar, algum personagem se perde em falas afetadas e poucos naturais, que afundam a narrativa em um didatismo desnecessário.
Já a segunda está mais relacionada ao gênero que “A lenda de Candyman” busca pertencer. Sangue e tensão são bem-vindos no terror, mas sem um perigo real e palpável fica difícil para o público se identificar com os medos dos personagens.
Em pouco tempo, por mais que o protagonista entre em uma espiral que o levará a um fim inevitável, aqueles que o orbitam estão claramente seguros.
Rodney L Jones III em cena de ‘A lenda de Candyman’
Divulgação
Falta de inspiração
Para piorar, a trama não dá material suficiente para que o bom elenco brilhe. A escalação de Yahya Abdul-Mateen II (“Watchmen”), um dos grandes nomes emergentes da atual geração de Hollywood, é perdida em um papel que não se aproveita de suas habilidades.
O mesmo pode ser dito de Teyonah Parris (“Wandavision”). Por mais que o filme eleve aos poucos a importância da personagem da atriz, os fragmentos de narrativa que a enriquecem parecem vestígios de algum outro rascunho da história – um que seria até mais interessante.
Isso para não falar do pecado que é submeter Colman Domingo (“Euphoria”) ao caricato papel de narrador dispensável, ironicamente o único representante da antiga comunidade pré-gentrificação que o roteiro tanto quer discutir.
Magia
Falando assim, parece até que “A lenda de Candyman” é um fracasso. Não é o caso.
O filme infelizmente sofre por causa das expectativas geradas por sua própria equipe – uma espécie de reflexo das vítimas da história, incrédulas com a materialização de um assassino ao falarem seu nome em frente ao espelho.
Enquanto umas não acreditam ao verem que a promessa da lenda é verdadeira, a produção confia cegamente que vai conseguir o sucesso simplesmente ao juntar aleatoriamente grandes ingredientes. Como magia.
Cena de ‘A lenda de Candyman’
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