A estranha história da banda que transformou uma notícia de tragédia em hit pop rock


‘The Way’, do trio americano Fastball, reconta história de casal de idosos que se perdeu dirigindo e sofreu acidente. Ao G1, cantor também explica como ganhou fortuna graças a Camila Cabello. Quando eu hitei: Fastball e a estranha história que virou hit pop rock
No meio dos anos 90, o trio texano Fastball já tinha lançado um álbum. Tinha também contrato com uma grande gravadora. Mas ainda estava atrás do sucesso e ele só veio com “The Way” (veja trechos do clipe no vídeo acima).
O hit contrastava uma levada pop rock sessentista bem cativante com uma história impressionante na letra. A banda fala de um casal que saiu dirigindo pelos EUA, sem avisar aos filhos e sem saber o caminho. “The Way” saiu em 1998, tocou muito em rádios e foi parar na trilha da novela “Era uma vez”.
“Eu tive a ideia a partir de uma notícia divulgada na região, aqui no centro de Texas”, explica o vocalista e baixista Tony Scalzo ao G1 (veja entrevista no vídeo acima).
A partir desta quarta-feira, o G1 estreia a série “Quando eu hitei”. Toda semana, artistas da música pop relembram como foi viver o auge e contam como estão agora. São nomes que você talvez não se lembre, mas quando ouve a música pensa “aaaah, isso tocou muito”.
“Um casal de idosos havia desaparecido, da família e eles tinham saído no carro e não conseguiram chegar ao destino pretendido. E eles se perderam e ficaram cerca de duas semanas desaparecidos.”
Scalzo transformou uma notícia triste em uma história fantástica e romântica. O casal da letra (inspirado no casal real) resolve fazer uma última viagem feliz e sem problemas, rumo ao infinito.
Qual era o casal real?
Raymond, de 88 anos, e Lela, de 83, saíram para ir a um festival e acabaram mais de 700 quilômetros distantes do destino. Eles morreram em um acidente de carro
Reprodução/YouTube/KVUE
O casal era formado por Raymond, de 88 anos, e Lela, de 83. Ele havia feito uma cirurgia no cérebro e ela tinha perda da memória.
“Os destroços do veículo foram encontrados por um jovem, muito longe de onde eles deveriam estar”, conclui Scalzo.
No dia 29 de junho de 1997, eles saíram da cidade americana de Belton, no Texas, para ir a um festival. Acabaram mais de 700 quilômetros distantes do destino.
Assim que leu a notícia no jornal, o cantor se levantou da mesa da cozinha, onde estava tomando café da manhã, e foi escrever uma música baseada naquela história.
O trio americano Fastball: Joey Shuffield, Miles Zuniga e Tony Scalzo
Divulgação
“Uma das conclusões que tirei ao longo dos anos é que alguns dos melhores trabalhos exigem muito pouco esforço. É mais sobre capturar uma ideia quando chegar a hora certa.”
“A história já estava lá, era meu trabalho apenas especular, apenas meio que inventar um final.” E foi assim que ele juntou tragédia, mistério e “uma forma melódica muito familiar”.
“Tem um acorde menor”, explica ele, falando do início da música. “Então, quando o refrão chega, ele meio que muda para uma progressão de acordes principais com uma melodia, que é um pouco mais edificante e talvez mais cool e moderna, pura e positivo. Otimista.”
A letra partiu de uma notícia. Já a melodia veio quando ele apertou um botão do sintetizador e ouviu um padrão de ritmo bem comum. A primeira versão tem apenas ele cantarolando em cima daquela batida eletrônica em loop.
“Acrescentei um pouco de guitarra, tipo um solo de guitarra espanhola no meio”, recorda. Os dois parceiros de Fastball curtiram e, seis meses depois, eles fizeram a versão definitiva em um estúdio em Los Angeles.
Quando a música estourou, tiveram a chance de falar com a família do casal que inspirou “The Way”. “As ‘crianças’ sobre as quais falei são mais velhas do que eu, agora estão na casa dos 70 anos. Há 25 anos, eram adultos já. Então, estava falando dos filhos adultos dessas pessoas mais velhas que desapareceram.”
Muita grana, oh nana
Camila Cabello e Machine Gun Kelly gravaram ‘Bad Things’, que tem trechos de música do Fastball
Divulgação
Mas “The Way” não foi o maior sucesso do Fastball. A banda já botou duas músicas na parte mais alta das paradas americanas: uma cantada por eles e outra pela Camila Cabello.
“Out of my head”, balada do Fastball, já havia tocado bastante no fim dos anos 90. Mas foi a partir de uma versão de Camila com o rapper Machine Gun Kelly que virou um megahit.
Na verdade, a dupla pegou trechos da música e mudou a letra. E isso deu origem a “Bad Things”, trap romântico lançado em 2017.
Quando Tony autorizou o uso da música, ele não sabia que aquele “sim” o faria ganhar algum dinheiro, mas não tanto assim.
“Eu baixei e ouvi a música e pensei: ‘uau, isso parece muito bom e realmente é tipo um hit no rádio, isso soa como algo que eu poderia ouvir no rádio com certeza e algo que meus filhos ouviriam’.”
Um ano depois, a mulher dele entrou correndo e gritando em casa: “Eles estão tocando aquela música no rádio”. Não era qualquer estação de rádio: era uma só com músicas do top 40. O Fastball era, indiretamente, dono de mais um sucesso.
A capa de ‘All the Pain Money Can Buy’, do Fastball, álbum que tem ‘The Way’ e ‘Out of my head’
Reprodução
Tony virou fã de Camila Cabelo (“Bem, ela é cubana. Acho que ela tem um gás”), só que a verba de direitos autorais teimava em não cair na conta dele.
Até que… “Eu estava na casa de um amigo com minha família, tirando férias, a gente estava na loja comprando coisas para a viagem, toalha de praia e sei lá”, recorda, engatilhando um risinho.
“Daí, eu recebo uma mensagem e todo esse dinheiro caiu na minha conta bancária. Tipo muito, muito dinheiro, muito mesmo. Eu fiquei tipo ‘ei, precisamos comprar mais um pouco daquelas macadâmias’.”
Tony ri por algum tempo e continua: “E nos próximos dois anos, um monte de dinheiro veio para me ajudar a pagar dívidas e outras coisas. E eu não tive que fazer nada. Espero que outra pessoa pegue uma das minhas músicas e faça exatamente a mesma coisa.”
Sem TMZ e sem (tantas) tretas
O Fastball em foto de 2019
Divulgação/Site Oficial
Para fechar, o cantor repassou a carreira, com uma sinceridade que geralmente não se vê em um popstar. Talvez pese o fato de ele não ser exatamente um popstar.
Mas, olhando os quase 25 anos do Fastball, teria feito algo diferente? “Eu realmente não faria. Gosto do jeito que as coisas são. Não chegamos a ser famosos nem nada, e acho que a fama vem com problemas com os quais estou grato por não ter que lidar.”
“Posso ir aonde eu quiser. E se eu quiser qualquer tipo de atenção, ou o que precisar para o meu ego, é fácil conseguir isso. Mas eu não preciso me preocupar em sair de um carro ou supermercado em Malibu, e ter o TMZ me atropelando entre os paparazzi. Estou muito feliz que as coisas tenham sido assim.”
Além disso, ele diz que conseguiu ter uma trajetória “sem escândalos”. “Eu tive problemas, tenho certeza que deixei muitas pessoas com raiva e fiz alguns inimigos, mas eu fiz muitos amigos e me diverti muito.”
“Às vezes não me lembro de tudo, mas não cheguei ao ponto onde eu estava de bruços no banheiro de um quarto de hotel. Graças a Deus”, completa, rindo.
“Agora estou saudável e feliz e não tenho dívidas. E eu tenho uma ótima família. Minha banda e eu somos amigos e nos amamos muito e trabalhamos muito. Criamos músicas e temos muita sorte. Então, sabe, a longo prazo, eu diria que não há arrependimento algum.”
O Fastball no começo da carreira
Danny Clinch/Hollywood Records/Divulgação