‘Programa Escola nas Férias’ oferece atividades a crianças e adolescentes em BH

Este ano, 109 escolas municipais vão participar do programa com jogos e brincadeiras, esportes, arte, capoeira, culinária, artesanato, por exemplo. Para a meninada que está de férias em Belo Horizonte essa semana é especial. As escolas municipais oferecem atividades no “Programa Escola nas Férias” para crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.
Não é necessário estar matriculado na rede pública de ensino, nem sequer morar na capital. Até sexta-feira (25), são esperadas 27 mil crianças nas 109 escolas participantes.
Este ano, 109 escolas municipais vão participar do programa com oficinas diversas, como jogos e brincadeiras, esportes, arte, capoeira, culinária, artesanato e outras, além de visitas a museus, passeios em parques, clubes e cinemas.
As atividades são pela manhã e à tarde, a depender da programação de cada escola. Os participantes também recebem alimentação diária.
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Com skate e poesia, projeto leva equilíbrio e autoconfiança para jovens do extremo Leste de SP


Coletivo Love CT – Resgate e Inclusão oferece aulas de skate e saraus literários às terças-feiras, quintas e sábados para crianças e adolescentes da periferia da cidade. Projeto social une skate, poesia e arte na Cidade Tiradentes
Cidade Tiradentes, bairro no extremo Leste de São Paulo, está mais para ilha do que para distrito. Distante e sem conexão com o Centro da capital, é formado essencialmente por conjuntos habitacionais, carece de transportes, empregos e áreas de lazer. Assim como em outras periferias, no entanto, sua população não se vitimiza e se engaja por melhorias.
“Love CT – Resgate e Inclusão” é um dos diversos coletivos que se formaram no distrito. Na adolescência, os seis skatistas que compõem o grupo tinham em comum o desejo de desbravar a região surfando no asfalto, nas escadas e corrimões. Em 2011 iniciaram um projeto que oferece aulas do esporte, agora olímpico, para crianças e jovens. O objetivo é compartilhar os valores que aprenderam com a prática.
“O skate é um estilo de vida. Ele te apresenta à solidariedade quando só você tem uma bolacha na mochila, te ensina a se manter em equilíbrio, mostra que a evolução é gradual e que cada um tem um ritmo, te ensina a cair sem muitos arranhões e a persistir”, explica Elton Melônio um dos fundadores do Love CT.
“O skate demanda coragem, autoconfiança e que você levante a cabeça para olhar sempre em frente”, afirmou o skatista profissional de 31 anos.
Da esquerda para a direita, Anderson Lucas, Call Gomes, Elton Melônio, Marcelo Martins, Robson de Souza e Thiago Matos, do Love CT, recebem visita do G1 em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo
Celso Tavares/G1
Contraturno escolar
O Love CT trabalha com grupos de aproximadamente 50 crianças e jovens com idades entre 4 e 17 anos, todos moradores de Cidade Tiradentes e alunos do CEU Inácio Monteiro.
“Nós procuramos ser um elo entre o CEU, que é muito importante para a região, e a comunidade”, disse Marcelo Martins, 36 anos, skatista, educador e também fundador do coletivo. “Hoje atendemos quase que como contraturno escolar, de manhã e à tarde.”
As atividades fixas promovidas gratuitamente pelo grupo são aulas de skate e saraus literários, às terças, quintas e sábados.
“Um amigo professor passou uma visão importante: ‘Quando a aula acabar, troquem uma ideia para abaixar a adrenalina antes de liberá-los para casa. Pode ser perigoso sair assim pelas avenidas’. Então, incluímos o sarau, que acontece sempre depois da atividade física”, afirma Anderson Lucas, 31 anos, skatista há 19, um dos fundadores do coletivo e pai da Jasmine.
Por meio do skate, jovens atendidos pelo Love CT desenvolvem solidariedade, equilíbrio, persistência, coragem e autoconfiança
Celso Tavares/G1
Quem ministra os saraus é Cal Gomes, 34 anos, músico, técnico de som e integrante do projeto. “Trabalhamos muito com poesia, que é divertida de ler por conta das rimas. As crianças aprendem que a palavra é divertida. Começam a frequentar com vergonha, mas uma semana depois mostram que leram e escreveram”, afirma.
Por ser um trabalho voluntário, sem patrocínio, o grupo não consegue montar um cronograma de oficinas para o ano, mas conta com a ajuda de parceiros. Ao longo dos oito anos de trabalho, foram oferecidas oficinas de música, composição em Rap, estamparia, cartografia, culinária africana e indígena, e inglês, baseada nos nomes das manobras.
Além disso, a sede do Love CT também passou a receber exposições de artistas locais, sendo a mais recentes delas “Raízes”, das artistas Juliana Costa e Laís da Lama. A mostra retrata “mulheres de verdade, distantes do estereótipo de beleza vendido pela publicidade”, como define Marcelo Martins.
Integrantes do coletivo Love CT disseram receber retorno positivo de pais e alunos, que relatam mais empenho nos estudos
Celso Tavares/G1
Impacto social
As atividades oferecidas pelo coletivo ocorrem em uma área cedida pelo CEU Inácio Monteiro, que tem pista de skate e uma casinha, que abriga a sede do Love CT. A área fica na parte externa do centro educacional e foi revitalizada pelos skatistas para uso da comunidade.
De acordo com o grupo, o local estava abandonado e havia sido degradado desde a saída de uma base da Guarda Civil Metropolitana (GCM) do local. A área era violenta, com uma média de dois carros roubados por dia, sendo a maioria pertencentes a professores do CEU, segundo os skatistas.
“Revitalizamos a área. Fizemos jardins, um arquiteto sugeriu um projeto, uma pedreira ajudou com o paisagismo, e nós construímos bancos de praça, além de cuidar da iluminação. Até o ponto final de uma linha de ônibus acabou transferido da favela para cá por conta da segurança”, acrescenta Anderson Lucas.
Skatistas revitalizaram área do CEU onde desenvolvem trabalhos do Love CT, em Cidade Tiradentes, na Zona Leste da cidade
Celso Tavares/G1
Sobre as crianças, os integrantes do coletivo disseram receber retorno positivo de pais e alunos, que relatam mais empenho em algumas disciplinas.
“Desenvolvemos um trabalho com quadrinhos, que são uma ótima introdução à leitura devido aos diálogos curtos e figuras coloridas. Um mês depois, um aluno da 5ª série disse ter aprendido a ler porque se interessou em conhecer o conteúdo dos gibis”, exemplifica Marcelo Martins.
“Nosso trabalho às vezes parece ignorado pelo poder público, o que é uma violência. O que estamos fazendo é um complemento à educação oferecida no CEU, com metodologia. Que o poder público enxergue isso e subsidie nosso trabalho. Funciona”, acrescenta Robson de Souza, 38 anos, ativista cultural e um dos coordenadores do projeto.
Trabalho realizado pelo Love CT acontece em área cedida pelo CEU Inácio Monteiro, Em Cidade Tiradentes
Celso Tavares/G1
Mestrado em Cidade Tiradentes
As particularidades e complexidades do distrito levaram o geógrafo Marcio Rufino Silva, que atualmente leciona na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a elaborar uma tese de mestrado sobre a Cidade Tiradentes. O processo de urbanização ajuda a compreender a realidade da população local.
“Este distrito nasceu nos anos 80 no âmbito das políticas habitacionais, sem ter sido alcançada pelo processo de urbanização, e no meio da crise nacional do pós-ditadura – as obras foram entregues incompletas, sem linhas de ônibus, comércios e empregos suficientes, e a região cresceu desordenadamente, sem a integração com o tecido urbano de que desfruta Itaquera. Se tornou um claro exemplo de segregação urbana produzida pelo Estado”, disse.
Crianças e adolescentes fazem aulas de skate e participam de saraus promovidos pelo coletivo Love CT, em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo
Celso Tavares/G1
Cidade Tiradentes não tem um grande veículo de massa, como trens da CPTM e do Metrô, para transportar seus mais de 200 mil habitantes pelos 35 km de distância que a separam do Centro da cidade.
Por meio de sua pesquisa, o professor Marcio Rufino Silva constatou que o maior gargalo do distrito é realmente a falta de acesso, e relembra que nem mesmo o Expresso Tiradentes chega até Cidade Tiradentes, alcançando somente a Vila Prudente.
“A população de Cidade Tiradentes vive intimamente a dinâmica da metrópole, se deslocando por distâncias enormes para chegar ao trabalho sem um transporte coletivo estruturado. No entanto, sua localização é privilegiada do ponto de vista metropolitano. Poderia ser reconfigurado com a extensão da Avenida dos Metalúrgicos em 5 ou 6 km até o trecho leste do Rodoanel. Isso acontece no trecho Oeste, cercado por galpões logísticos, e converteria Tiradentes de periferia a local de passagem, com novos negócios e dinâmicas”, exemplifica.
É luta constante. É luta e é luta. Pela sobrevivência, pela identidade, pelo urbano
O professor entrevistou moradores antigos da região para a realização de seu estudo e constatou que a maior parte deles chegou até lá removida de áreas que passaram por obras públicas. Ele afirma que coube a esses pioneiros reivindicar melhorias e equipamentos para a região, como a construção de um hospital.
“As pessoas não se conheciam, tinham diversas dinâmicas de vida e não tiveram chance de participar da concepção da Cidade Tiradentes. Foram desterradas da sua própria terra, mas não se vitimizam. É luta constante. É luta e é luta. Pela sobrevivência, pela identidade, pelo urbano. É uma luta pelo urbano”, concluiu.
Foto de arquivo tirada no dia 19 de outubro de 2004 mostra conjunto habitacional da Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo
J. F. Diorio/Estadão Conteúdo